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Uma Relação de Aprendizado

Pais e Filhos São Mestres Uns dos Outros
 
 
Carlos Cardoso Aveline
 
 
 
 
Apoio mútuo é uma chave da boa relação entre pais e filhos
 
 
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O texto a seguir foi publicado
inicialmente de modo anônimo. Ele apareceu
durante o final da década de 1990 na Coleção
Planeta, “Inteligência Emocional”, número 4, Ed.
Três, pp. 20-27. Foi revisado e atualizado pelo autor
para a presente edição online, em fevereiro de 2013.
 
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“Isto está bem assim, meu filho. Siga adiante.”
 
Você já teve a sensação de ouvir mentalmente comentários de seus pais sobre situações que você vive? Caso a resposta seja afirmativa, não se trata de um fato isolado. A relação entre pais e filhos funciona, mesmo, como um diálogo interior permanente. Nossas figuras paternas e maternas são presenças sutis que falam em nossas mentes o tempo todo. Este vínculo oculto entre gerações diferentes ultrapassa os limites do conhecimento racional, porque faz parte da alma humana.
 
Mas a relação entre pais e filhos contém, também, uma chave de acesso para a compreensão da misteriosa e fascinante relação que se dá entre personalidade e alma imortal, ou eu inferior e eu superior.
 
Comecei a investigar este fato de maneira inesperada, ao perceber em mim mesmo uma atitude simultaneamente filial e paternal em relação ao que posso chamar de meu eu superior.  Algum tempo atrás fui levado por um impulso a colocar no papel as seguintes palavras:
 
“Tento ouvir e obedecer ao meu eu superior. Sou filho dele. Ao final da minha vida, ele herdará tudo o que eu tenha feito de bom e de útil”.
 
Fiquei surpreso com minhas próprias palavras, porque elas supõem que o eu imortal é tanto meu pai (origem) como meu filho (herdeiro). Percebi então com clareza o fato de que, afinal, nossa relação com os filhos e as crianças em geral diz respeito à nossa imortalidade. Os filhos são uma extensão da nossa existência pessoal, assim como nosso eu superior ou alma eterna - que recolhe as experiências práticas de cada vida particular - nos oferece uma imortalidade espiritual enquanto avança em sua longa caminhada para a perfeição humana.
 
Tantos nossos pais como nossos filhos estão, em parte, fora dos limites cronológicos normais da nossa vida, e há nisso uma transcendência mútua.
 
Por outro lado, para toda criança as figuras do pai, ou da mãe, ou de ambos, aparecem como personificações do seu próprio eu superior. Na infância, os pais são heróis míticos, onipotentes, onissapientes, deuses protetores, e às vezes irados, mas sempre donos de um poder desmedido. E, para os pais, o filho cumpre um papel semelhante: a criança é um anjo indefeso e encantador, uma alma pura que inspira os melhores sentimentos e fala direto ao coração adulto. Cuidar bem dela representa um compromisso sagrado.
 
Olhando a existência humana do ponto de vista da viagem infinita da vida pelo tempo linear, vemos jovens e velhos como vizinhos cronológicos que transmitem uns aos outros a chama da vida em uma corrente que nunca rompe.
 
A palavra pai é símbolo de origem, dominação, coragem, e representa toda autoridade. O chefe, o patrão, o professor, o líder e o mestre espiritual são aspectos diferentes da figura paterna básica. O pai é o sol, a noção de limites, e ele também aponta para o infinito. Ele protege e limita, dita normas e nos empurra para a frente, rompendo o território fechado da simbiose com a mãe. Já a ideia de mãe está associada à nutrição, à ternura, à terra, à harmonia, à pureza, e à ausência de dureza ou agressividade. A palavra criança, por sua vez, é sinônimo de inocência e espontaneidade. Toda vida familiar é um jogo de papéis dramáticos que reúne as atitudes típicas do pai, da mãe e dos filhos.
 
Este jogo nunca cessa dentro de nós. Há uma família física, externa, e há uma família psicológica no interior de cada ser humano. É desta última que ele retira o material básico do seu comportamento. Tios, irmãos mais velhos, professores e avós podem ter-nos dado alimento decisivo como figuras alternativas de pai e mãe. Mas o que absorvemos, exatamente, com que profundidade e de que modo, e que significado damos em nossa vida ao que absorvemos? Estas são questões que dependem, sobretudo, da nossa própria alma. Um bom exemplo pode ser “absorvido” ou não. Um mau exemplo pode ser “absorvido”, ou pode ser apenas identificado como uma clara lição sobre o que não devemos fazer. Isto dependerá de nós mesmos, de nosso livre-arbítrio e de nossa maturidade interior. Essa troca de energias ou “contágio” com o mundo emocional ao nosso redor prossegue enquanto vivemos.
 
Quando temos filhos, é este nosso material emocional básico que projetamos sobre eles. O grau de autoconhecimento que tivermos alcançado será de importância significativa para a criança que trouxermos ao mundo e para todos os jovens com quem convivermos. Uma das coisas mais valiosas que podemos transmitir a nossos filhos - ou herdar de nossos pais - é a capacidade de ser pessoas íntegras, mesmo que isso implique coragem, desapego e dificuldades no mundo externo. Nossa verdadeira herança - tanto a que recebemos como a que transmitimos - não tem nada a ver com bens materiais. Melhor do que milhões de dólares é a capacidade interior de ser feliz, percebendo o cumprimento do dever como fonte de contentamento e o amor e a ética como processos incondicionais.
 
Os pais só podem dar aos filhos aquilo que eles têm, e os velhos transmitem aos jovens com igual generosidade sua sabedoria e sua ignorância. Desde o primeiro instante, pai e mãe projetam sobre a criança seus conteúdos psicológicos positivos e negativos, feitos de esperança e medo, virtudes e defeitos, luz e sombra. A criança começa a receber esta herança logo ao nascer, e continuará a recebê-la, através do diálogo interno perpétuo com suas figuras paternas e maternas, até o seu último dia de vida. As figuras de divindades masculinas e femininas reforçarão e enriquecerão este diálogo em diversas religiões orientais e ocidentais. É a própria criança que dá significado às mensagens paternas e maternas em seu mundo interior. O crescimento psicológico e espiritual constitui o processo pelo qual assumimos a direção de cada aspecto da nossa própria vida, sem interromper o diálogo com pai e mãe, mas recriando continuamente este diálogo sobre bases mais elevadas. Quando a relação superficial entre pais e filhos morre ou é transcendida, surge a relação espiritual. Quando morremos psicologicamente para nosso próprio egoísmo, aprendemos a amar nossos filhos e nossos pais - e também as outras pessoas.
 
Como podemos compreender melhor a relação emocional entre pais e filhos? Pode-se começar fazendo um inventário das heranças de luz e de sombra. Que aspectos positivos e negativos nossos pais projetaram sobre nós? Como se deu a distribuição de virtudes e defeitos, de energia positiva e negativa, entre os filhos? Uma criança traz consigo uma combinação das energias emocionais, mentais e espirituais dos seus pais, e este conjunto energético inclui várias tonalidades de luz e sombra. Que aspectos positivos e negativos da nossa personalidade projetamos - conscientemente ou não - sobre nossos filhos? Que medos e coragens herdamos de nossos pais? Isto tudo deve ser observado serenamente, sem autocondenação ou autojustificação.
 
Se na combinação de luz e sombra que recebemos de nossos pais predominar o aspecto positivo - o que dependerá da nossa maneira de ver a vida -, seremos capazes de projetar uma combinação positiva de luz e sombra para nossos filhos. Mas, em última instância, somos todos livres. Cada ser humano pode selecionar o que quer da herança psicológica deixada à sua disposição por seus pais e outras figuras ancestrais.
 
Na idade adulta, reconstruímos e reorganizamos as vivências da infância. Renascemos a cada instante. Cada dia é o começo do resto das nossas vidas. Podemos rever e equacionar novamente a qualquer momento a nossa postura energética básica, redefinindo de modo mais luminoso a nossa herança cármica. Para isso, a energia do perdão é fundamental. Perdoar nossos pais e outras pessoas por seus erros é indispensável para que nos libertemos do passado. Assim aumentaremos nossa capacidade básica de ser feliz no momento presente e de projetar felicidade para os jovens com quem convivemos. Um gesto intenso de projeção de felicidade sobre uma criança é, literalmente, uma bênção, e pode ter influência sobre mais de uma geração. Os gestos intensos perduram no tempo porque programam e definem as atitudes médias diante da vida.
 
É bom que haja, penso, uma certa base impessoal no amor entre pais e filhos. A criança deve saber que certos direitos seus serão atendidos incondicionalmente. É importante que os jovens se sintam aceitos e respeitados mesmo nos momentos difíceis. Pedi a um jovem de 16 anos que apontasse três coisas que um adolescente espera de seus pais. A resposta foi dada por escrito:
 
“O adolescente espera que dêem condições financeiras, como comida, escola, diversão. Espera também conselhos, pois nem sempre um adolescente tem experiência de vida suficiente para tomar decisões; e que sejam amigos, pois é importante que pelo menos dentro de casa se tenha paz.”
 
Perguntei também o que é mais importante no relacionamento entre pais e filhos. A resposta foi:
 
“O respeito”.
 
Em seu livro “Iron John”[1], Robert Bly afirma que todo jovem necessita que um ou mais adultos acompanhem seu crescimento psicológico com atenção construtiva e um sentimento de admiração. Bly menciona especificamente que, para ganhar segurança pessoal, o filho homem necessita da admiração encorajadora de um homem que cumpra o papel de pai. O mesmo vale para a relação mãe-filha. Esta atenção estimuladora é especialmente importante nos momentos decisivos da vida dos jovens, porque é neste momento que a influência externa pode penetrar mais fundo na personalidade em formação. O estímulo positivo nos momentos críticos da infância e adolescência fará com que o jovem tenha autoconfiança nos momentos difíceis ao longo da vida, enquanto o elogio que só é feito quando tudo vai bem pode ser indício de superficialidade no compromisso dos pais com o jovem. Na verdade, os pais precisam estar comprometidos com sua própria vida interior para que seu compromisso com os filhos transcenda o nível biológico-instintivo e passe a ser conscientemente espiritual, de alma para alma.
 
A regeneração da sociedade exige, é claro, a regeneração dos laços familiares. Os novos padrões vibratórios solidários do terceiro milênio resgatam as relações humanas como territórios livres de autoritarismo e capazes de estimular o crescimento responsável de todos. Meus pais, meus filhos e os jovens com quem convivo são todos reflexos parciais da minha alma. Projeto algo da minha alma sobre a imagem construída de cada pessoa que conheço. Na medida em que a imagem é positiva, ou que pelo menos tiro lições positivas dela, posso resgatar e reconciliar-me com todos os aspectos exteriores do meu ser mais amplo.
 
Assim, tudo que é humano me diz respeito. E isto implica responsabilidade. Neste contexto, como ajudar nossas crianças a construir marcos referenciais saudáveis para si mesmas? Khalil Khavari e Sue Khavari respondem:
 
“Primeiro, devemos estar completamente convencidos do valor intrínseco de cada criança. É esta convicção que faz com que todos os nossos esforços valham a pena e tenham um significado. Em segundo lugar, devemos melhorar nossos próprios marcos referenciais para darmos bons exemplos. O terceiro ponto é que haja harmonia e unidade entre os pais, como casal. Se não houver harmonia, os pais não poderão dar a atenção adequada aos filhos”. [2]
 
Na sociedade atual, há outro ponto importante: a presença psicológica do pai ou da figura paterna. E da mãe. Pesquisas recentes no Brasil e no Exterior mostram uma relação direta entre a ausência ou fraqueza da figura paterna e os níveis de delinquência juvenil.[3] É certo que o divórcio é preferível à continuação indefinida de uma relação de casal desastrosa. Mas, por outro lado, a relação positiva com uma figura paterna - seja ou não seu pai biológico - é essencial para o jovem. Assim como a figura materna.
 
O estudo da história mostra que o casal humano é a base de todas as civilizações. A crise do casal provoca a crise da educação e da infância. Quando o homem e a mulher não são capazes de dar amor profundo um ao outro, também não podem dar amor e atenção às crianças, e a sociedade entra em decadência. As crianças, como os velhos, são exteriorizações da nossa própria alma imortal: quando os maltratamos ou ignoramos, estamos desrespeitando partes do nosso eu superior.
 
É certo que a família tem mudado e feito progressos. Os laços de amor não podem mais ser autoritários, exclusivistas e presos só à dimensão biológica e instintiva como até algumas gerações atrás. A família atual é mais dinâmica e ampla, embora os arquétipos básicos sejam iguais aos do passado. A dinâmica criadora da família humana é a mesma em toda parte. Segundo a sabedoria andina e a tradição de muitos povos orientais, todos os seres humanos são irmãos entre si, e são filhos do Pai Sol, que gera e mantém a vida na Mãe Terra. O mundo inteiro é uma extensão da nossa família. Todo homem suficientemente idoso é uma extensão do meu pai. Toda a mulher idosa é, em parte, uma figura materna. Se tenho idade e maturidade suficientes, todo o jovem é como meu filho. Por isso dizemos “meu filho” a alguém mais jovem, e chamamos uma pessoa muito idosa de vovô ou vovó. Os indígenas estão certos: todos os membros do nosso povo são “parentes” - e todos os seres humanos são membros do nosso povo. O mito de Adão e Eva é mais uma confirmação da fraternidade universal da humanidade.
 
Por outro lado, somos jovens e velhos simultaneamente. Estamos o tempo todo sendo pais e filhos uns dos outros. A corrente de pensamento psicológico chamado de análise transacional trabalha corretamente esta realidade básica, ensinando que o “eu” humano tem três posturas ou atitudes fundamentais: o estado de pai, o estado de adulto e o estado de criança. Somos pais, mas também irmãos e até filhos das pessoas com quem convivemos. Em minha relação de casal, devo estar pronto a viver com prazer o papel de pai, de filho e de irmão, sem deixar de ser amante. Minha mulher deve ter a liberdade de colocar-se como filha, irmã e conselheira à hora que lhe parecer correto. Devemos, também, ser suficientemente crianças para aprender com os jovens, enquanto ensinamos coisas novas aos nossos velhos.
 
Neste processo, podemos descobrir que a longo prazo somos nossos próprios pais. Somos os maiores responsáveis por nossa própria educação e também pelo crescimento da nossa alma imortal, que busca alcançar níveis cada vez mais altos de perfeição. Na velha cultura oriental, a saudação namastê significa “o princípio divino em mim saúda o princípio divino em você”. Na nova cultura global solidária, a ideia de namastê renascerá como um sol capaz de iluminar todas as relações humanas. A consciência divina do marido se relacionará com a consciência divina da esposa, e a energia divina nos pais se relacionará com a energia divina nos filhos. Perceberemos conscientemente, então, que a solidariedade incondicional é tão necessária à vida quanto a luz do Sol. E esqueceremos a dor que nos acompanhou de perto durante milhares de anos.
 
Fazendo um Inventário Pessoal
 
Pegue papel e caneta, sente-se retirado e afaste preocupações de curto prazo. Traga para perto de si todo seu passado e seu futuro. Respire profundamente. Com a coluna ereta e mãos sobre os joelhos, relaxe os músculos dos pés, pernas, braços, mãos e rosto. Visualize o centro de paz eterna em seu coração. Sinta a presença silenciosamente inspiradora deste centro. Pergunte-se, então, anotando as palavras-chave das respostas que surgirem:
 
• Que lições espirituais positivas posso extrair do que conheço da vida de meus pais, avós e demais figuras paternas/maternas? Coragem? Desapego? Integridade? Que lições e virtudes? Que atitudes práticas dos mais velhos inspiram meu aprendizado interior?
 
• Que lições práticas a vida dos mais velhos me dá sobre o que não devo fazer em minha vida? Que falhas não devo repetir?
 
• Que lições positivas da minha vida estou passando, pelo meu exemplo concreto, para meus filhos, sobrinhos, irmãos mais novos, alunos e todos os jovens com quem convivo? Que tipo de erros não devo transmitir a eles?
 
• Em que posso aprender com os mais jovens? O que tenho aprendido com as crianças? Como posso ampliar meu aprendizado com elas?
 
Para encerrar, deseje por um instante paz a todos os seres, sejam eles crianças, jovens, adultos ou velhos, e pertençam ou não ao reino humano.
 
 
NOTAS:
 
[1] “Iron John”, de Robert Bly, Vintage Books, Nova York, EUA, 268 pp. 
 
[2] “Creating a Successful Family”, de Khalil Khavari e Sue W. Khavari, Ed. Oneworld, Grã-Bretanha, 1990, 269 pp.; ver pp. 43-44.
 
[3] “Folha de S. Paulo”, 1º de novembro de 1998, 3º caderno, pp. 1 a 4. Nos EUA e no Brasil, pesquisas constataram relação direta entre delinquência juvenil e ausência da figura paterna na vida familiar.
 
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