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A Luz no Caminho

Os Paradoxos da Sabedoria Suprema
Carlos Cardoso Aveline
É no mínimo misterioso o texto do pequeno livro “Luz no Caminho”, um clássico da filosofia esotérica oriental, publicado pela primeira vez no Ocidente há pouco mais de um século.
A obra tem poucas páginas e só pode ser compreendida com o uso da intuição, porque aponta para uma sabedoria que está além das palavras. Seu texto, ditado a Mabel Collins por um instrutor de filosofia esotérica, foi publicado em Londres em 1885, mas é muito anterior àquele momento. Usado havia séculos pelas escolas esotéricas orientais, sua publicação na Europa foi parte do esforço teosófico por aproximar as tradições espirituais do oriente e do ocidente, preparando e antecipando o trabalho espiritual dos séculos 20 e 21.
Todo bom livro das tradições místicas parece colocar-nos diante de algumas perguntas básicas:
1) Qual é a importância das palavras na evolução espiritual?
2) Até que ponto elas são indispensáveis?
3) Será que o homem surgiu com a linguagem verbal e estará sempre preso a ela?
A filosofia esotérica afirma que a alma humana não é descendente dos macacos. Ao contrário, para a teosofia, a humanidade surgiu em níveis de consciência superiores aos que conhecemos, quando a vida era quase imaterial, do ponto de vista das sociedades de hoje.
Na época, a comunhão entre as almas era tão imediata que não havia necessidade de linguagem verbal. Bastava a percepção direta. A linguagem externa apareceu mais tarde, inicialmente através de monossílabos que visavam dar apoio à comunicação intuitiva. Só pouco a pouco, à medida que nossa mente se tornava afiada e que perdíamos a percepção espiritual das coisas, surgiu uma linguagem mais complexa. Ganhávamos a lógica dos detalhes em troca da intuição perdida. É verdade que hoje temos uma linguagem dependente das palavras, e ela frequentemente se divorcia do mundo espiritual, negando e ocultando a verdade interior. Mas, para a sabedoria oriental, um dia nós voltaremos a aquele estado inicial de comunhão interior que tornava as palavras desnecessárias. Mesmo na atualidade há momentos em que alcançamos o nível intuitivo de consciência, enxergando as coisas com o coração e não só através do cérebro. O pequeno livro “Luz no Caminho” é um instrumento para o despertar desta percepção.
Filosoficamente, um paradoxo é uma afirmação que parece dizer duas coisas diferentes ao mesmo tempo, e requer um salto de consciência para ser compreendida como totalidade, porque não vê um lado só da verdade. “Luz no Caminho” [1] tem um estilo paradoxal, e fala mais à alma que ao cérebro. Contém palavras, mas está livre delas. Leva o leitor a um plano da realidade em que a compreensão está além da linguagem verbal e transcende as suas limitações. A obra fala aos dois hemisférios do cérebro humano, o lógico e o intuitivo. Dá conselhos aparentemente contraditórios, mas isto se deve ao fato de que a natureza do ser humano é, realmente, dual.
Vejamos as duas primeiras frases do livro:
“Antes que os olhos possam ver, devem ser incapazes de lágrimas. Antes que o ouvido possa ouvir, deve ter perdido sua sensibilidade.”
As lágrimas significam as lamentações pessoais e a piedade de si mesmo. O aprendiz que é incapaz desta emoção pode ver a realidade com clareza imparcial. A sensibilidade egocêntrica com que normalmente “ouvimos” ou percebemos a vida do ponto de vista do nosso próprio bem-estar deve ser abandonada. Só depois disso pode surgir a percepção superior, impessoal.
O texto prossegue:
“Antes que a voz possa falar na presença dos Mestres, deve ter perdido o poder de ferir. Antes que a alma possa estar na presença dos Mestres, seus pés devem ser lavados com o sangue do coração.”
A idéia de Mestres simboliza o mundo divino dentro de nós. O estudante deve avançar no caminho através do sacrifício da sua natureza pessoal. O sangramento das nossas paixões e sofrimentos pessoais (coração) deve purificar os pés, que são a nossa base e o nosso contato com a Terra e o mundo material. Assim nossa vida será coerente e poderemos perceber a presença do mundo divino. Porém, o estudante não necessita buscar sofrimento. O próprio ato de viver é perigoso, e o sofrimento vem naturalmente para todo ser vivo. O que o estudante do caminho espiritual faz é apenas colocar seus sofrimentos pessoais dentro do contexto maior da busca da verdade, reconhecendo que toda vida é uma grande lição, e aceitando tudo com a humildade do aprendiz. Então a purificação ocorre. E a pureza surge com força quando desistimos unilateralmente de agredir outros seres, seja física, emocional ou mentalmente. Temos o direito de proteger-nos, dentro dos limites da ética, mas passamos a ser basicamente inofensivos.
A tradição mística diz que as almas humanas saíram um dia do mundo divino e deverão voltar a ele, mais tarde, enriquecidas pelas experiências que acumularam no mundo externo. “Luz no Caminho” é uma ferramenta de trabalho para os que decidem acelerar conscientemente a volta para a casa divina. Em poucas palavras, sempre paradoxais, o texto enumera regras para os discípulos:
“Mata a ambição. Mata o desejo de viver. Mata o desejo de conforto. Trabalha como aqueles que são ambiciosos. Respeita a vida como aqueles que a desejam. Sê feliz como os que vivem em função da felicidade pessoal.”
A ambição pessoal cega o estudante. Já o desejo de viver e o medo do desconhecido podem transformá-lo em um medroso incapaz de abrir caminhos, aceitar riscos ou assumir responsabilidades. O desejo de conforto o leva a uma preguiça que, às vezes, é a própria morte espiritual. O estudante deve estar decidido a buscar o impossível, esforçando-se como os egoístas, enquanto abandona a busca de comodidade e abre mão do que é seu.
Alguém escreveu que, em geral, os egoístas têm vontade forte e buscam com todas as forças materializar suas ilusões, enquanto os seres espirituais parecem não ter motivação alguma e ficam parados, como se não tivessem nada para fazer, ou não tivessem vontade de fazer nada. Talvez seja por isso que o mundo tem tantos problemas. Se os cidadãos altruístas fossem mais ativos, provavelmente o mundo melhoraria com rapidez. Como obter motivação para as coisas espirituais?
O que move uma pessoa são seus desejos e emoções. Diga-me o que você deseja, e eu lhe direi quem você é. Quando purificamos nossas intenções, alcançamos a felicidade interior. Mas quem está disposto a trocar seus desejos egoístas por outros, melhores e mais puros? “Luz no Caminho” aconselha:
“Deseja somente o que está dentro de ti. Deseja somente o que está além de ti.”
A sabedoria está dentro de nós, e também além de nós. Nossas personalidades são apenas noções relativamente superficiais de um “eu” separado. Quando olhamos profundamente para nós próprios vemos que não somos “alguém”. Apenas somos. Ser “alguém” na vida é fazer o papel de um personagem construído socialmente. Em compensação, o zen-budismo costuma perguntar a seus aprendizes, para que meditem:
“Qual era teu nome, qual era teu rosto, duzentos anos antes de nasceres?”
Se olharmos para a essência dentro de nós, esqueceremos nosso pequeno mundo pessoal. Se olharmos para fora deste pequeno mundo psicológico, também esqueceremos o “eu” que tem o hábito de ver a si mesmo como único centro do universo. Mas é preciso desejar o que está além de nós próprios.
O texto prossegue:
“Deseja somente o que é inalcançável. Pois dentro de ti está a luz do mundo - a única luz que pode ser projetada sobre o Caminho. Se fores incapaz de percebê-la dentro de ti, é inútil procurá-la em outra parte. Está além de ti, porque quando a alcançares já te perdeste. É inatingível porque sempre recua. Entrarás na luz, mas nunca tocarás na Chama.”
A sabedoria está “além de nós” porque só podemos alcançá-la deixando de lado o pequeno eu pessoal e ativando o hemisfério cerebral direito, sede da intuição espiritual. Como ensinou São Francisco de Assis, é morrendo que se nasce para a vida eterna. É deixando de existir para o hemisfério cerebral esquerdo, lógico, linear e quase sempre prisioneiro do egocentrismo, que nascemos para a consciência do hemisfério cerebral direito, que é intuitiva, criativa, capaz de perceber simultaneamente cada instante e a eternidade inteira. Entraremos na luz, mas nunca tocaremos a Chama, porque ela é de uma dimensão superior à humana.
“Mata todo sentido de separação”, diz um dos preceitos. E o instrutor que ditou a obra explica em seguida: “Não te iludas imaginando que podes afastar-te do mau e do insensato. Eles são tu mesmo, embora em grau menor do que o teu amigo ou teu Mestre. Porém, se permitires que cresça no teu interior a idéia de separação de qualquer coisa ou pessoa má, estarás criando um carma que te ligará a esta pessoa ou coisa até que tua alma reconheça que não pode permanecer isolada.”
Aqui, mais um paradoxo. Ficamos presos a tudo aquilo que rejeitamos. Só podemos libertar-nos de algo mau quando deixamos de temê-lo. A energia do rancor nos prende àquilo de que queremos afastar-nos. A rejeição é uma forma de apego. O texto também ensina que todas as pessoas e situações que enfrentamos são sempre espelhos de nós próprios, mesmo que secundários e distorcidos:
“Lembra-te de que o pecado e a vergonha do mundo são o teu pecado e a tua vergonha, pois tu és parte do mundo. Teu carma está inseparavelmente ligado ao grande Carma.”
O carma individual é parte do carma coletivo. Assim, o caminho espiritual só pode ser trilhado em solidariedade com os outros seres. Mas isto não significa que não devemos ser ambiciosos. O livro ensina:
“Deseja ardentemente o poder. Deseja fervorosamente a paz. Deseja posses acima de tudo. Porém estas posses devem pertencer somente à alma pura, e devem ser possuídas portanto igualmente por todas as almas puras (...). Deseja aquelas posses que podem ser mantidas pela alma pura, para que acumules riquezas para o espírito uno da vida que é o teu único e verdadeiro Eu. A paz que deves desejar é aquela paz sagrada que nada pode perturbar, e na qual a alma desabrocha da mesma forma que a flor santa sobre as lagoas tranquilas. E o poder que o discípulo deve cobiçar é aquele que fará com que ele apareça como nada aos olhos dos outros.”
O poder que nos faz parecer nada aos olhos dos outros é a força da alma.
A paz interior está ao abrigo da maré perpétua das emoções que sobem e descem, seguindo mecanicamente as alegrias e tristezas de curto prazo. O caminho espiritual é uma trilha estreita que se abre entre duas expectativas igualmente ilusórias: a esperança do prazer, de um lado, e o medo da dor, de outro. Estes dois extremos geram dependência emocional e sofrimento psicológico.
Um dos preceitos mais inspiradores do livro, e que desafia frontalmente os nossos hábitos emocionais, recomenda:
“Aprende a olhar inteligentemente os corações dos homens. De um ponto de vista absolutamente impessoal, pois caso contrário tua visão estará distorcida (...).”
O indivíduo desatento olha os outros mas não os vê, e apenas projeta seus próprios conteúdos mentais e emocionais sobre eles, porque está preocupado exclusivamente com os seus próprios interesses e perspectivas pessoais. Olhar inteligentemente as pessoas significa muitas coisas. Uma delas é respeitar o outro pelo que ele é, e não pelo que podemos ganhar dele.
Segue o texto:
“A inteligência é imparcial: nenhum homem é teu inimigo; nenhum é teu amigo. Todos são teus instrutores. Teu inimigo torna-se um mistério que deve ser resolvido, mesmo que isso possa necessitar um longo tempo; porque o homem tem que ser compreendido.”
Este preceito é recomendado em diferentes tradições. O pensador clássico Plutarco escreveu um pequeno tratado intitulado “Como Tirar Proveito dos Seus Inimigos”. No século 20, Carlos Castaneda escreveu sobre a técnica do “pequeno tirano”, em que o aprendiz espiritual aproveita a existência de um inimigo (o “pequeno tirano”) para observar em si mesmo os processos do medo, do ódio, do orgulho ferido, da auto-importância, infantilidade, etc. Os amigos quase sempre nos acostumam mal, os inimigos frequentemente nos ensinam.
“Luz no Caminho” dá também uma chave para que se saiba vencer os momentos difíceis, inevitáveis em toda caminhada espiritual. São João da Cruz falou da “noite escura da alma”. O Jesus do Novo Testamento fala das tentações. Ainda na Bíblia, a história de Jó mostra como o bom discípulo é entregue às forças negativas e amplamente testado por elas. A tradição oriental ensina que as decisões altruístas do aprendiz são duramente colocadas em cheque e questionadas até que ele tenha um alto grau de pureza, coerência, perseverança e bom senso. Para cada pessoa, a cada momento, os testes e as “provações” serão diferentes. Nenhum de nós está livre deles. Qual é, porém, a chave que nos permite vencê-los? “Luz no Caminho” fala do perigo e dá um conselho decisivo:
“Quando houveres encontrado o começo do caminho, a estrela da tua alma mostrará a sua luz; e através desta Luz perceberás como são grandes as trevas nas quais ela brilha. Mente, coração e cérebro, todos estarão obscuros e em trevas até que a primeira grande batalha tenha sido ganha. Não fiques apavorado nem aterrorizado com esta visão; conserva teus olhos fixos na pequena luz e ela crescerá.”
Na medida em que mantemos o pensamento concentrado no bem e nas coisas boas, o lado saudável da vida cresce e cada sofrimento se mostra como uma oportunidade de crescimento. Por isso o homem sábio usa seu indispensável espírito crítico para construir o que é bom. Assim ele fica livre para ajudar na construção de uma nova era de paz e solidariedade. Um processo que ocorre sempre de dentro para fora, fluindo do nosso coração para o mundo ao redor.
NOTA:
[1] “Luz no Caminho”, Mabel Collins, edição de bolso com 110 pp., Editora Teosófica, Brasília, 1999. Há uma edição da Editora Pensamento, com 85 pp.
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