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Boletim O TEOSOFISTA, Março 2009
O Teosofista
Notas e Informações Sobre Teosofia e o Movimento Esotérico
“Plante um pensamento, e colha uma ação; plante um ato, e colha um hábito;
plante um hábito, e colha um caráter; plante um caráter, colha um destino.”
[Da revista mensal indiana “The Theosophical Movement”, edição de março de 2008, p. 165. ]
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Expectativas “Mágicas” Para 2012 Não Têm Base na Tradição
Para Entender a Chamada Profecia Maya
O mundo não vai acabar em dezembro de 2012. Não há verdade nas previsões atribuídas a um Calendário Maya, segundo as quais uma grande catástrofe terminará o mundo tal como o conhecemos, às vésperas do Natal daquele ano. Mas a profecia chama de certo modo atenção para o tema de fundo, que é a inegável necessidade de uma forte mudança de rumo no atual processo civilizatório.
Embora a data não deva ser levada a sério, o ano de 2012 também pode ser visto como um indicativo simbólico da verdadeira transição, que é gradual e complexa, demora séculos, e merece ser investigada como tal.
Desde os primeiros tempos do cristianismo, marcar data e hora para o apocalipse tem sido uma atividade constante, tradicional, e em alguns casos economicamente rentável. Marcar hora para o final do mundo vem sendo uma ilusão auto-renovável, e também um modo prático de chamar atenção do público, pelo menos até a chegada da “data fatídica”.
É oportuno esclarecer, desde já, que não há qualquer menção ao ano de 2012 na tradição Maya em si mesma. Tampouco seria correto exagerarmos a sabedoria da civilização maya, da América Central. A visão do ano de 2012 como momento de alguma súbita transformação mundial resulta das especulações pessoais do pensador José Arguelles, feitas nas últimas décadas do século 20 e possivelmente baseadas em alguns dados astrológicos. Basta investigar as origens do suposto “calendário maya” apontando para 2012, para ver que a única fonte destas supostas informações é Arguelles. Também é fácil perceber que as profecias são de um conteúdo simples e ingênuo.[1] Depois de fazer uma idealização fantasiosa da cultura maya, Arguelles atribuiu a ela as suas próprias profecias. Seguidores de Arguelles, seguramente com boas intenções, continuam aprimorando o trabalho de produzir e lançar profecias de curto prazo, imaginativas mas sem conteúdo durável. Elas servem no máximo como um alerta geral no sentido de que “algo de importante está acontecendo com nossa civilização”.
É verdade que vivemos uma transição mundial complexa e importante. Ela tem fortes dimensões culturais, políticas, militares, econômicas, ecológicas e espirituais. É possível que ocorram grandes transformações, inclusive climáticas e geológicas, nos próximos anos e décadas. Podemos dizer que tais transformações já começaram. No entanto, a marcação de uma data única para acontecimentos extraordinários simplifica o processo indevidamente e tende a colocar os cidadãos na posição de espectadores diante do “espetáculo do fim do mundo”, o que é inteiramente equivocado.
Não há nem pode haver espectadores na atual transição planetária, que é na verdade um despertar em escala global. Os pensamentos e as ações de cada ser humano fazem parte da grande força resultante que determina a qualidade e o modo exato da mudança. Deixando de lado a busca do espetáculo externo, devemos assumir nossas responsabilidades pessoais pela transformação e cultivar a arte de agir corretamente, tanto no plano individual como no plano coletivo.
A marcação de uma data precisa e única para o “fim do mundo” ou para qualquer transição mundial súbita resulta da ansiedade pessoal de pessoas desinformadas. A observação isenta da evolução humana confirma a tese da filosofia esotérica: as transições de era ocorrem gradualmente e ao longo de séculos. O tema dos ciclos de evolução merece uma investigação calma e atenta. Para isso, a filosofia teosófica original possui uma vasta literatura de grande valor, algo que todo leitor pode e deve verificar por si mesmo.
Segundo a teosofia, os limites numerológicos entre as eras, assim como o início e o final dos períodos de transição, são dados matemáticos abstratos. Em torno destes limites, desdobra-se uma transição cármica que possui um ritmo próprio. As eras e ciclos são como a escada e o corrimão que sinalizam o caminho e dão o rumo para que a evolução faça a subida até novos patamares de consciência. Escada e corrimão – o plano divino da evolução – dão as condições e o apoio necessários. Mas não predeterminam exatamente de que modo o peregrino, a humanidade, avançará pelos degraus. Vejamos mais algumas poucas informações a respeito, em sete pontos numerados.
1) Em sua obra “A Doutrina Secreta”, H. P. Blavatsky afirma que os períodos de transição entre uma era e outra correspondem a dez por cento da duração da era.
2) Em outro contexto, H.P.B. escreveu que o início da era de Aquário ocorre no ano de 1900. A duração da era de Peixes e da era de Aquário é de 2.155 anos, segundo a filosofia esotérica. Calculando os dez por cento, podemos deduzir que há um período de transição de 215 anos e meio entre as duas eras, que deve ser dividido em duas metades, uma anterior e a outra posterior ao ano de 1900.
3) A metade exata de 215 anos e meio fica entre 107 e 108 anos, quase chegando a 108. O número 107 corresponde a um dos ciclos ocultos mencionados nas “Cartas dos Mahatmas”. O número 108, por sua vez, é sagrado na Índia. Há 108 contas no rosário hindu e budista. Há 108 Upanixades. Atribui-se ao número 108 um significado astronômico ligado à lua. Os budistas veneram 108 Arhats ou sábios. O número 108 tem importância especial para a Cabala e a tradição hermética ocidental. [2]
4) Retrocedendo 108 anos a partir do ano de 1900, encontramos o ano de 1792. Naquele momento a revolução francesa estava em sua plenitude, e a revolução norte-americana de 1776 havia-se consolidado havia pouco. A transição para a era de Aquário começa com os ideais libertários e fraternos daquelas duas revoluções, e também, sem dúvida, com o humanismo iluminado do filósofo Immanuel Kant, no mundo germânico. No Brasil, cabe lembrar, o herói e visionário aquariano da independência nacional, alferes Tiradentes, é morto em 1792.
5) Por outro lado, se somarmos 108 ao ano de 1900, teremos o ano de 2008, um ano em que o despertar da consciência planetária já estava ocorrendo em grande escala. Portanto, do ponto de vista esotérico, a transição foi completamente terminada e estamos em plena era de Aquário. Faltam agora alguns acertos cármicos no plano visível, que podem ser mais ou menos difíceis.[3]
6) É certo que não há um “momento único de transição total”. Nem existirá necessariamente uma grande catástrofe súbita. Catástrofes globais não estão descartadas entre 2009 e 2025. Mas a marcação de datas para um suposto “momento único” não desperta nem esclarece pessoa alguma. Apenas cria uma curiosidade ansiosa sobre fatos espetaculares, mas imaginários, e reduz as pessoas à condição de espectadores passivos.
7) Na verdade, é através da confiança no futuro de longo prazo, e do calmo bom senso, que despertamos para a ação correta no presente. O momento histórico que vai de 2008 a 2025 estimula o despertar de cidadãos planetários ativos, que vivenciem um sentimento lúcido de co-responsabilidade pela transição mundial. Necessitamos de cidadãos dotados de uma visão de longo prazo e construtiva. A nova consciência planetária deve ser realista e capaz de atuar no mundo, mas deve estar ligada à prática do estudo e da contemplação das grandes verdades universais. E a nova consciência não pode ser separada do exercício diário do bom senso.
NOTAS:
[1] Veja as profecias equivocadas para o final da década de 1990, no livro intitulado “2012 – A Profecia Maya”, de Alberto Beuttenmuller (Ed. Ground, SP, 1996, 286 pp.). Examine também a nota publicada a respeito na revista “Veja” de 4 de fevereiro de 2009, pp. 90-91.
[2] “Espiritualidade Através dos Números”, de Georg Feuerstein, Ed. Siciliano, 218 pp., 1994, pp. 194-195.
[3] Para um enfoque teosófico mais amplo da atual transição mundial em relação aos ciclos e eras da evolução humana, veja o artigo “The Hundred-Year Cycle and the Twilight of the Pisces Age” de Carlos Cardoso Aveline, publicado na revista internacional “FOHAT”, Canadá, edição de inverno de 2008-2009 (verão de 2008-2009 no Brasil), pp. 82 e seguintes. O texto também está publicado na seção “Climate Change and the New Planetary Cycle”, do website www.filosofiaesotérica.com , sob o título “The Twilight of the Pisces Age”.
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“Ilusão” e “Maya” São Apenas Aspectos da Lei
A Verdade Governa o Universo
Pergunta:
Até que ponto é possível dizer, como afirmam certos estudantes de tradições orientais, que tudo no universo é “maya”, ou seja, que “tudo é ilusão”?
Comentário:
A palavra sânscrita “maya” tem pelo menos dois sentidos.
Por um lado, “maya” é aquele nível de ilusão que nos rodeia na vida diária e que pode e deve ser identificado e descartado, para que alcancemos novos níveis de percepção da realidade. Neste sentido, maya é a ilusão dos cinco sentidos. Os olhos, por exemplo, são instrumentos obviamente limitados para sondar a realidade. Usando microscópios e telescópios, podemos ver muito mais. Esta ampliação de percepção ocorre em todos os aspectos da vida. O estudo da teosofia nos permite ver o contraste entre o que é ilusório e o que é verdadeiro na vida como um todo e não só no plano físico.
Por outro lado, maya é também um termo filosófico aplicado ao universo em seu conjunto. “O universo é maya” diz a filosofia hindu. Mas, neste caso, “maya” não significa nada que possa ou deva ser descartado, pelo menos no estágio atual da nossa humanidade.
A natureza e o universo são vistos como ilusão apenas no sentido de que, como estão em evolução, não são a Realidade Eterna e Imutável. É neste sentido que a filosofia oriental usa a palavra “maya”. O universo é uma realidade em evolução. Portanto ele parece precário, isto é, ilusório. Mas se aceitarmos, por outro lado, que a verdadeira realidade do universo é o movimento eterno, então ele passa a ser aceito como algo que é muito real, ainda que não seja a verdade suprema e imutável. A ideia faz sentido porque, segundo a filosofia esotérica, o movimento − inclusive o movimento cíclico − é eterno e infinito no espaço absoluto.
“Maya”, o universo que evolui, é verdadeiro. Ele apenas não é o princípio supremo e absoluto do qual nada pode ser dito.
Uma evidência indiscutível de que o universo é verdadeiro − embora não seja a verdade absoluta e indescritível − está no fato de que a Lei e a Verdade governam cada um dos seus aspectos e das suas dimensões. As inteligências divinas que informam e orientam a natureza e o universo em movimento podem ser reconhecidas não só pelos místicos de todas as religiões e pelos filósofos de escolas tanto orientais como ocidentais, mas também pelos homens de mentalidade mais terrestre através da linguagem da química, da física, da astronomia, da biologia, da matemática e assim sucessivamente. Cada linguagem, cada abordagem, permite “ler” um aspecto diferente do trabalho das inteligências universais. A ilusão está na superfície, e a verdade na essência do universo.
Pergunta:
Então a palavra “maya” não significa apenas “uma ilusão a ser descartada”, mas também significa “a realidade do universo em evolução, um processo que avança em direção à verdade, de acordo em todos os seus detalhes com a lei do carma, da justiça e da harmonia.”
Comentário:
Sem dúvida. Exatamente. Por exemplo: as ilusões e desilusões que as almas individuais dos membros da nossa humanidade vivem são apenas estágios do aprendizado, e todas elas estão imersas na Lei. Nenhum sofrimento injusto deixa de ser compensado. Enganos e desenganos fazem parte da Lei da justiça e pertencem ao plano de evolução descrito amplamente na obra “A Doutrina Secreta”, de H. P. Blavatsky. Do ponto de vista da nossa humanidade, o caminho da sabedoria é trilhado identificando e destruindo as ilusões que surgem do eu inferior.
Pergunta:
Como assim?
Comentário:
A visão teosófica da natureza é dinâmica. O universo é percebido como uma unidade em movimento. Assim como existem diferentes níveis de manifestação ou evolução do universo, há também vários níveis de maya (ilusão) a serem transcendidos, e diferentes níveis de verdade (libertação), a serem alcançados, em cada etapa da caminhada.
Maya, para o estágio humano atual, é a realidade vista pelo eu inferior, isto é, o nível de consciência que se limita ou ilude pelos cinco sentidos e pela memória pessoal. O verdadeiro, para nós, é a realidade vista pelo eu superior, isto é, aquele nível de consciência em que se percebe, compreende e vivencia aquilo que une as diversas encarnações da mesma alma espiritual. O eu superior vê simultaneamente o vazio e a plenitude da evolução do cosmo, do sistema solar e da alma humana. A cada vazio corresponde uma plenitude. Ver só Plenitude na realidade seria tão ilusório quanto ver só Vazio. Paradoxalmente, é mayávico achar que só há “maya” no universo. Há “maya” e há lei; há aparência e há essência, há matéria e espírito, há o fugaz e há o eterno.
Na caminhada humana, a cada vazio corresponde uma plenitude, que ocorre no plano imediatamente superior. Por isso a prática da renúncia (que é a aceitação do aspecto Vazio budista) leva, na realidade, à plenitude e à libertação. Nos termos de São Francisco de Assis:
“É morrendo (isto é, aceitando o Vazio), que se nasce para a vida eterna (isto é, a Plenitude).”
Isso é o mesmo que trasladar o foco médio de consciência do eu inferior para o eu superior. A renúncia − a compreensão do caráter ilusório da vida tal como ela se apresenta aos cinco sentidos − abre as portas para a percepção do real em um plano superior que é o próximo estágio do aprendizado da alma.
Os seres humanos não estão sós ou desamparados. É verdade que o deus monoteísta é uma ilusão fabricada por sacerdotes; mas a lei divina e a inteligência implícita do universo são realidades perceptíveis. Isto tem sido experimentado e demonstrado por inúmeros pesquisadores independentes, sábios e místicos de todos os tempos e lugares, entre eles Albert Einstein. A Lei está em toda parte, inclusive no âmago da consciência individual de cada cidadão.
Pergunta:
Será devido ao fato de que não compreendem a lei da ética, que os sofistas e pseudo-espiritualistas fazem um uso distorcido do conceito de maya?
Comentário:
Sim. Aquele que não tem ética pensa, simploriamente, ou pelo menos afirma, que “tudo é maya, tudo é ilusão”. A partir disso, ele tenta tirar proveito fazendo ilusionismo, e acha que pode driblar a lei do carma. Na verdade, “maya” nunca se afasta da Lei e é de fato uma manifestação da Lei, uma manifestação em constante aperfeiçoamento. O espertalhão sempre colherá o fruto do que plantou. O mesmo acontece com quem é honesto. Sob a aparência enganosa ou imperfeita de “maya”, funciona silenciosa e infalivelmente a lei da justiça. A lei do carma não é maya. A lei do carma é a lei eterna.
O ditado popular afirma que “Deus escreve certo por linhas tortas”. Na verdade, a Lei escreve corretamente a história da evolução, usando as linhas aparentemente tortas de “maya”.
O preço do progresso é o desapego. Todos os seres evoluem em direção à verdade e à plenitude, e só conseguem fazer isso descartando níveis mais precários de visão, a que se pode chamar de maya. Os diversos níveis de maya e de verdade ficam mais claros quando observamos o que são o espaço e o tempo para diferentes níveis de inteligência.
Para o ser humano, um período de 24 horas é “maya” no sentido de que é algo fugaz e passageiro. Mas, para certos insetos, 24 horas podem significar uma vida inteira. Por outro lado, para os humanos, o período de um século pode parecer um longo tempo. No entanto, para os grandes sábios e mestres o que conta são períodos de dezenas de milhares − ou milhões − de anos, como podemos ver e estudar em “A Doutrina Secreta”.
O mesmo ocorre em relação à noção de espaço. A idéia de espaço de um inseto é modesta se comparada com a dos humanos. A noção de espaço de um ser humano é mais ampla, e se expandiu muito de 500 anos para cá, graças ao avanço das ciências. Mas a noção de espaço de um grande sábio, um Mahatma, é imensamente maior e mais complexa que a dos humanos. Os mestres e Iniciados compreendem os vários níveis do Akasha – o Espaço tal como percebido daquele ponto de vista que enxerga além dos cinco sentidos.
O processo iniciático consiste, precisamente, em romper um a um com os níveis e círculos de maya, chegando, assim, a novos níveis e círculos de percepção da verdade universal. Tal caminhada não é apenas algo que vale a pena. É também a marcha natural da evolução humana. Mas deve-se admitir que nem sempre é fácil para o aprendiz abandonar o joio a que está emocionalmente acostumado, para alimentar-se do trigo que só agora vê vagamente e pela primeira vez. Mas o velho método da tentativa e do erro, e da correção pelo menos parcial do erro, seguida de uma nova tentativa e de mais outra, continua sendo o único método eficaz.
Como Termina o Período do Devachan
O Impulso Para Renascer Encerra o Descanso Entre Duas Vidas
O longo estágio de bem-aventurança que ocorre entre uma vida e outra é chamado de “Devachan” ou “local divino”. É o Devachan que faz com que haja, em média, algo entre 1000 e 4000 anos entre duas encarnações da mesma alma espiritual.
Mas por que o Devachan não se eterniza?
O que é que faz surgir, no final do Devachan, um impulso por nascer de novo? Qual é o conjunto de causas e efeitos que provoca a reencarnação do eu superior de alguém? E de que maneira são determinadas as condições em que a alma renascerá?
Estas questões são abordadas na monumental Carta 68 dos dois volumes “Cartas dos Mahatmas Para A.P. Sinnett” (Ed. Teosófica). O texto menciona os cinco tipos de skandhas ou registros cármicos que levam os códigos da energia vital de uma encarnação para a outra.
Para entender como funcionam os skandhas, podemos usar um exemplo da tecnologia moderna. Quando duas pessoas falam ao telefone, a voz do indivíduo A é codificada, ou melhor, desmaterializada e transformada em códigos eletrônicos (equivalentes a skandhas). Na recepção, o telefone do indivíduo B saberá decodificar e rematerializar tais registros abstratos de som.
Portanto, ao telefone, cada som passa por uma desmaterialização (ou morte) e uma rematerialização (ou renascimento) quase instantâneos. Em um aparelho de telefax, ou de telégrafo, ocorre a mesma coisa. A mensagem “renasce” em outro “corpo físico”, isto é, outro papel e outra tinta.
Na Internet, o processo é similar. A mensagem mandada desde um computador “renasce” graças ao “corpo físico” do monitor do computador usado para recepção e leitura, ou graças à impressora e à tinta que permitirão colocar a mensagem em uma folha de papel. As palavras deste parágrafo que está sendo lido agora, por exemplo, não viajaram até o leitor enquanto palavras. Elas foram eletronicamente desmaterializadas, transmitido em forma de códigos e re-materializadas graças aos computadores e monitores usados pelos que lêem o boletim O TEOSOFISTA.
O que ocorre na transição entre duas vidas humanas é de certo modo semelhante. As informações cármicas (ou skandhas) dos padrões energéticos são desmaterializadas, depois processadas, purificadas, transmitidas para novos contextos por um processo de afinidade cármica, e finalmente reencarnam ou se re-materializam graças à matéria física e astral dos novos locais.
O processo de concepção de um feto humano inicia o processo de “materialização” da Alma que está pronta para renascer. É claro que uma criança não é mera cópia da vida anterior. Ela é um renascimento em novo contexto da mesma essência interior presente na vida prévia, e vem purificada pela longa bênção do Devachan.
Diz o Mestre, na fundamental carta 68:
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Se você perguntar a um monge budista erudito o que é Carma – ele dirá a você que Carma é o que um cristão poderia chamar de Providência (apenas em um certo sentido) e um maometano Kismet, destino (de novo, em certo sentido). Dirá que é esta doutrina fundamental que ensina que, assim que qualquer ser sensível morre, seja homem, deva ou animal, um novo ser surge, e ele reaparece em outro nascimento, no mesmo ou em outro planeta, sob condições criadas por ele mesmo. Ou, em outras palavras, que o Carma é o poder orientador, e Trishna (em páli Tanha) a sede ou desejo de vida sensível, a próxima força ou energia, a resultante da ação humana (ou animal) que, a partir dos velhos Skandhas , produz o novo grupo que forma o novo ser e controla a natureza do próprio nascimento. Ou, para torná-lo ainda mais claro, o novo ser é recompensado e punido pelos atos meritórios e maus atos do ser velho; o Carma representa um Livro de Registros no qual todos os atos do homem, bons, maus ou indiferentes, são cuidadosamente anotados para seu débito e crédito – por ele mesmo, digamos, ou mais precisamente pelas próprias ações dele. Lá onde a ficção poética cristã criou e vê um Anjo “Registrador” Guardião, a lógica budista, severa e realista, mostra sua real presença percebendo a necessidade de que cada causa tenha seu efeito. Os oponentes do Budismo têm dado grande destaque à alegada injustiça de que o autor escape e a vítima inocente seja forçada a sofrer – já que o autor dos atos e quem sofre são seres diferentes. O fato é que, embora em certo sentido eles possam ser considerados diferentes, em outro sentido eles são idênticos. O “ser velho” é o progenitor – pai e mãe ao mesmo tempo – do “novo ser”. É o anterior que cria e dá forma a este último, na realidade; e muito mais do que qualquer pai carnal. E uma vez que você tenha dominado bem o significado dos Skandhas você verá o que quero dizer.
É o grupo de Skandhas que forma e constitui a individualidade física e mental que nós chamamos de homem (ou qualquer ser). Este grupo consiste (no ensinamento exotérico) de cinco Skandhas, isto é: Rupa, as propriedades ou atributos materiais; Vedana, sensações; Sanna, idéias abstratas; Samkara, tendências tanto físicas quanto mentais; e Vinnana, poderes mentais, uma ampliação do quarto, significando as predisposições mentais, físicas e morais. Nós acrescentamos a eles dois outros, cujos nomes e naturezas você pode aprender mais adiante. No momento é suficiente fazer com que saiba que eles estão conectados com, e são produtores de, Sakkayaditthi, a “heresia ou ilusão da individualidade” e de Attavada, “a doutrina do Eu”, sendo que ambos (no caso do quinto princípio, a alma) levam à maya da heresia e da crença na eficácia de vãos rituais e cerimônias, em orações e em intercessão.
Bem, retorno à questão da identidade entre o velho homem e o novo “Ego”. Devo lembrá-lo mais uma vez de que até mesmo a sua ciência aceitou o fato antigo, muito antigo, ensinado pelo nosso Senhor, isto é, que um homem de qualquer idade, embora seja o mesmo do ponto de vista da sensibilidade, fisicamente não é o mesmo que era alguns anos antes (nós dizemos sete anos, e estamos preparados para defender e provar esta afirmativa); na linguagem budista, os Skandhas dele mudaram. Ao mesmo tempo eles estão sempre e incessantemente trabalhando na preparação do molde abstrato, a “particularização” do futuro novo ser. Bem, então, se é justo que um homem de 40 anos tenha satisfação ou sofra devido às ações do homem de 20 anos, também é igualmente justo que o ser de um novo nascimento, que é essencialmente idêntico ao do nascimento anterior, sinta as conseqüências daquele Eu ou daquela personalidade geradora. As suas leis ocidentais, que punem o filho inocente de um pai culpado ao privá-lo de seu pai, de seus direitos e propriedades; a sua sociedade civilizada, que rotula com a infâmia a filha inocente de uma mãe imoral e criminosa; a sua Igreja Cristã e suas escrituras, que ensinam que “O Senhor Deus castiga pelos pecados dos pais até a terceira e a quarta geração”; não é tudo isso muito mais injusto e cruel do que qualquer coisa feita pelo Carma? Em vez de punir o inocente junto com o culpado, o Carma vinga e recompensa o inocente, o que nenhum dos seus três poderes ocidentais acima mencionados pensou alguma vez em fazer.
[ Trecho reproduzido das pp. 310-312, volume I, Carta 68, de “Cartas dos Mahatmas”, Editora Teosófica, Brasília. ]
Sobre a Esperança de Ser Infalível
Simplicidade Voluntária é Indispensável na Caminhada
Pergunta:
Podemos ver que há alguns “líderes espirituais” que parecem considerar a si mesmos como incapazes de errar. O que diz a teosofia a respeito?
Comentário:
A marca de uma pessoa desinformada é a esperança de ser infalível. O orgulho que decorre desta esperança é sintoma que não há um bom contato com a alma imortal.
Os seres humanos são todos aprendizes, quando são sábios. O importante é aprender a aprender, e H. P. Blavatsky escreveu:
“Por que deveria qualquer um de nós − sim, e até mesmo o maior conhecedor da sabedoria oculta entre os teosofistas − adotar a pose da infalibilidade? É melhor admitirmos humildemente com Sócrates que ‘só sabemos que nada sabemos’; pelo menos, em comparação com o que ainda temos que aprender.” [1]
A luz da aprendizagem interior parece iluminar melhor aquele que avança corrigindo seus erros com simplicidade, pelo caminho estreito e íngreme que vai morro acima em direção à visão do Todo.
NOTA:
[1] 'Theosophical Articles', H. P. Blavatsky, Theosophy Co., Los Angeles, edição em 3 volumes, 1981, ver volume 1, p. 22, texto 'Esoteric Buddhism and The Secret Doctrine'.
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Cartas a Adyar Sobre William Q. Judge
Em Defesa da Verdade Histórica
Pelo quarto ano consecutivo, estudantes de teosofia escreverão em torno do dia 13 abril de 2009 cartas para a direção internacional da Sociedade Teosófica de Adyar, solicitando que seja corrigida a injustiça feita por Annie Besant e Henry Olcott contra William Judge, em 1894-95.
O processo de acusações injustas e perseguição da Sociedade de Adyar contra Judge levou à fragmentação do movimento teosófico, e hoje está bem documentado em diversos livros.[1] Foi o primeiro passo para o abandono da filosofia original e a criação de uma pseudo-teosofia.
As acusações de que Judge havia forjado contatos com os Mestres de Sabedoria foram baseadas em uma campanha de rumores cujo objetivo era obter o poder político sobre o movimento. Nenhuma prova válida foi jamais apresentada. Na época, o “Comitê Judicial” nomeado para examinar o assunto declarou que não poderia tomar uma decisão. As acusações não foram sequer avaliadas. Pouco antes de morrer, Henry Olcott fez uma autocrítica a respeito. No entanto, Judge nunca foi declarado inocente pela Sociedade de Annie Besant. O carma amadureceu e hoje a Sociedade de Adyar vive uma crise sem precedentes.
Começada em 2006, a campanha de cartas abertas para Adyar não espera resultados de curto prazo. No entanto, os seus organizadores consideram que ela é um instrumento útil para o movimento, porque demonstra de modo prático que a ação necessária para melhorar o movimento esotérico como um todo pode ser feita de modo democrático, com base na ação livre de estudantes independentes, feita com paciência e a longo prazo.
Cada carta em defesa de William Q. Judge é aberta e pode ser amplamente divulgada, de modo que o resgate do nome e da obra deste pensador ocorra de modo independente, enquanto Adyar não age. Mais informações sobre esta campanha de cartas podem ser obtidas escrevendo para lutbr@terra.com.br .
NOTA:
[1] Uma destas obras é “The Judge Case”, de Ernest Pelletier, publicada pela Sociedade Teosófica de Edmonton, Canadá, em junho de 2004. Com mais de 980 pp. em tamanho A4, o livro reproduz uma grande quantidade de documentos e é um arquivo histórico sem igual.
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O Teosofista - Notas e Informações Sobre Teosofia e o Movimento Esotérico
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