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Aforismos de Ioga de Patañjali, Livro IV

O Tratado Clássico de Raja Ioga, de Patañjali
 
 
William Q. Judge
 
 
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Título da Obra:
Aforismos de Ioga, de Patañjali -
Uma Interpretação de William Q. Judge
 
Título Original: “Patanjali’s Yoga Aphorisms”.
Primeira edição, 1889. Traduzido da edição em
inglês de Theosophy Co., LosAngeles, 1987,
74 pp.  A tradução foi feita por um Associado
da Loja Unida de Teosofistas, LUT,  para
 
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Livro IV
 
A Natureza Essencial do Isolamento [1]
 
 
 
1. As perfeições corporais, ou poderes super-humanos, são produzidas pelo nascimento, ou por ervas poderosas, ou por encantamentos, penitências ou meditações.
 
A única causa das perfeições permanentes é a meditação realizada em encarnações prévias a aquela em que a perfeição aparece, porque a perfeição de nascimento, tal como o poder de voar dos pássaros, é impermanente, assim como aquelas que resultam de encantamentos, elixires e coisas semelhantes. Mas quando a meditação chega ao nosso interior, ela afeta todas as encarnações.  Disso se conclui que a meditação em maldade resultará em perfeição na maldade.
 
2. A mudança de um homem em outro tipo de ser – como por exemplo em um ser celestial –  é efetuada pela transfusão de naturezas.
 
Esse aforismo se refere à possibilidade – admitida pelos hindus –  de um homem ser transformado em um dos Devas, ou seres celestiais, através de penitências e meditação.
 
3. Certos méritos, trabalhos e práticas são chamados de “ocasionais” porque não produzem modificações essenciais da natureza de um ser; mas são eficazes na remoção de obstruções de méritos anteriores, como no caso do agricultor que remove impedimentos no curso dos canais de irrigação, que então passam a fluir livremente. 
 
Esse aforismo pretende explicar melhor o aforismo número dois ao mostrar que em qualquer encarnação certas práticas [como as mencionadas acima] eliminarão os obstáculos criados pelo Carma passado de um homem, e através dos quais aquele Carma se manifestará, enquanto que, se as práticas não forem realizadas, o resultado da meditação passada pode ser postergado até outra vida.
 
4. As mentes que agem nos vários corpos que o asceta voluntariamente assume são produto apenas do seu egoísmo.
 
5. E para as diferentes atividades dessas várias mentes, a mente do asceta é a causa motriz.
 
6. Entre as mentes constituídas de modo diferente por motivos de nascimento, ervas, encantamentos, penitências e meditação, apenas aquela que resulta de meditação está livre da base de resíduos mentais de atividades.
 
Esse aforismo se aplica a todos os tipos de homens, e não apenas aos corpos de ascetas; e deve ser tido sempre em vista que a doutrina da filosofia segundo a qual cada vida deixa no Ego resíduos mentais que formam a base sobre a qual vicissitudes subseqüentes ocorrem em outras vidas.
 
7. O trabalho do asceta não é nem puro nem escuro, mas é peculiar em si mesmo, enquanto que o trabalho de outros é de três tipos.
 
Os três tipos de trabalho mencionados são: 1) puro na ação e na intenção;  2) escuro, como no caso do trabalho de seres infernais; 3) o trabalho da maior parte dos homens –  puro-escuro.  O trabalho do asceta é o quarto tipo.
 
8. Desses trabalhos resulta, em cada encarnação, uma manifestação apenas daqueles depósitos mentais que podem vir a frutificar no meio ambiente dado.
 
9. Embora a manifestação dos resíduos mentais possa ser interceptada por ambientes inadequados, com diferença quanto a tipo, lugar e tempo, há uma relação imediata entre eles, porque a memória e o fluxo do pensamento auto-reprodutivo são idênticos.
 
Isso serve para eliminar uma dúvida causada pelo aforismo 8, e visa mostrar que a memória não se  deve apenas à matéria cerebral, mas pertence ao eu superior  reencarnante [2], que mantém todos os depósitos  mentais em um estado latente.  Cada um deles se torna manifesto sempre que existem a constituição corporal e o meio ambiente adequados. 
 
10. Os depósitos mentais são eternos por causa da força do desejo que os produziu.
 
Na edição indiana o texto afirma que os depósitos permanecem por causa da “bendição”. E como essa palavra é usada com um sentido especial, nós não a usamos aqui.  A palavra “eternos” também tem um significado específico, e significa apenas o período que corresponde a um “Dia de Brahma” [3], que dura mil eras.
 
11. Como eles são reunidos por causas, efeitos, substratos e sustentação, quando esses fatores são eliminados, o resultado é que os depósitos mentais deixam de existir.
 
Esse aforismo complementa o anterior, e pretende mostrar que, embora os depósitos permaneçam durante uma “eternidade” se deixados em si mesmos – acrescentando-se a eles sempre novas experiências e desejos similares – ainda assim eles podem ser removidos quando forem eliminadas as causas que os produzem.
 
12.  Aquilo que é do passado e aquilo que ainda está por ocorrer não são reduzidos à inexistência, porque as relações entre os fatores diferem umas das outras. [4] 
 
13.  Os objetos, sejam sutis ou não, são constituídos das três qualidades.
 
As “três qualidades”[5] são Satwa, Rajas e  Tamas, ou Verdade, Atividade e Escuridão. Verdade corresponde à luz e à felicidade; Atividade à paixão; e Escuridão ao mal, à imobilidade, à indiferença, à preguiça, à morte. Todos os objetos manifestados são constituídos dessas três qualidades.
 
14. A especificidade das coisas resulta da especificidade das modificações. [6]
 
15. A cognição é algo diferente do objeto, porque há diversidade de pensamentos entre observadores do mesmo objeto.
 
16. Um objeto é conhecido ou não conhecido pela mente, conforme a mente estiver, ou não, matizada ou  afetada pelo objeto.
 
17. As modificações da mente são sempre conhecidas pelo espírito que as preside, porque esse espírito não está sujeito a modificações.
 
Por isso, ao longo de todas as modificações  às quais a mente e a alma inferior estão sujeitas, a alma  espiritual, Ishwara, permanece não-modificada, como “testemunha e espectador”.   
 
18. A mente não é auto-iluminada,  porque ela é um instrumento da alma, é colorida e modificada pelas experiências e pelos objetos, e é conhecida  pela alma.
 
19. A atenção não pode estar concentrada em dois objetos ao mesmo tempo. 
 
20. Se uma percepção fosse cognoscível por outra, então haveria também necessidade de um outro conhecimento da cognição, e disso resultaria uma confusão na memória.
 
21. Quando a compreensão e a alma estão unidas, então resulta o autoconhecimento.
 
O autoconhecimento de que se fala aqui é aquela iluminação interior desejada por todos os místicos, e não apenas um conhecimento do ser no sentido convencional.  
 
22. Quando a mente está unida à alma e completamente familiarizada com o conhecimento, ela abarca universalmente todos os objetos.
 
23.  Embora assumindo várias formas devido a inúmeros depósitos mentais, a mente existe em função da emancipação da alma e opera em cooperação com ela.
 
24. Para aquele que conhece a diferença entre a natureza da alma e a natureza da mente, deixa de existir a falsa noção em relação à alma.
 
A mente é apenas uma ferramenta, um instrumento, um meio pelo qual a alma adquire experiências e conhecimento.  Em cada encarnação a mente é, digamos, nova. Ela é parte do aparelho fornecido à alma durante inúmeras vidas para obter experiências e colher os frutos de trabalhos já realizados. A noção de que a mente é capaz de conhecer ou experimentar é falsa, e deve ser eliminada antes que a libertação possa ser alcançada pela alma. Foi afirmado, portanto, que a mente opera ou existe para realizar a salvação da alma, e não alma para a salvação da mente.  Quando isso é completamente compreendido, a permanência da alma ao longo do tempo é percebida, e todos os males resultantes de falsas idéias começam a desaparecer.
 
25. Então a mente se inclina para o discernimento e se curva diante do Isolamento.
 
26. Mas, nos intervalos da meditação, surgem outros pensamentos, em conseqüência da continuação de antigas impressões ainda não apagadas.
 
27. Os meios a serem adotados para evitar e eliminar essas antigas impressões são os mesmos indicados acima para que se evite as aflições. [7]
 
28. Se o asceta não deseja os frutos, mesmo depois de obter perfeito conhecimento, e não está inativo, a meditação chamada tecnicamente de Dharma Megha – nuvem de virtude – ocorre a partir do seu conhecimento discriminativo absolutamente perfeito.
 
O comentador explica que, quando o asceta alcançou o ponto descrito no Aforismo 25, se ele inclinar sua concentração em direção à prevenção de todas as outras idéias, e não tiver desejo de alcançar os poderes resultantes da sua vontade, ele alcança um estado ulterior de meditação, chamado “nuvem de virtude”, porque é como se a vontade fornecesse a chuva espiritual que possibilitasse a principal meta da alma – a completa libertação. E contém um alerta no sentido de que, enquanto aquela meta principal não for alcançada, o desejo de frutos é um obstáculo. 
 
29. Disso resulta a eliminação das aflições e de todos os trabalhos.
 
30. Então, em uma infinidade de conhecimento absolutamente livre de obscuridade e impureza, aquilo que é cognoscível parece ser pequeno e fácil de compreender.
 
31. A partir disso termina a alternância nas modificações das qualidades, pois o propósito da alma – experiência e libertação – está realizado.
 
32. Então é percebido que os momentos e a sua ordem de precedência e sucessão são a mesma coisa.
 
Esse é um passo além em relação ao Aforismo 53, Livro III, onde se afirma que, a partir da percepção das divisões últimas do tempo, é alcançada uma compreensão dos sutis e recônditos princípios do universo. Aqui, tendo chegado ao Isolamento, o asceta vê além até mesmo das divisões últimas do tempo, e essas divisões, embora sejam capazes de afetar o homem que não chegou a esse estágio, são idênticas para o asceta, porque ele é senhor delas.  É extremamente difícil interpretar esse aforismo; e no original está dito, “a ordem é a contraparte do momento”. Para expressá-lo de outro modo, podemos dizer que, das espécies de meditação mencionadas no Aforismo 53, Livro III, uma cognição calculada prossegue na mente, e enquanto ela dura o contemplador ainda não é completamente senhor dessas divisões do tempo, e ele é compelido a observá-las à medida que elas passam diante dele.
 
33. Isolamento é a reabsorção das qualidades que realizaram a meta da alma, ou a permanência da alma em unidade com a compreensão em si.
 
Essa é uma afirmação geral sobre a natureza do Isolamento, algumas vezes chamado de Libertação.  As qualidades de que se falou acima, encontradas em todos os objetos, e que haviam até esse momento afetado e atrasado a alma, deixam de ser vistas pela alma como se fossem realidades, e a conseqüência disso é que a alma se estabelece em sua própria natureza, que não é perturbada pelos “pares de opostos” –  prazer e  dor,  bem e mal, calor e frio, e assim por diante.
 
No entanto, não se deve pensar que a filosofia resulta em uma negação, ou em uma frieza, tal como a palavra ocidental “isolamento” pode sugerir.  O contrário é que ocorre. Até que esse estado seja alcançado, a alma, continuamente afetada e influenciada pelos objetos, pelos sentidos, pelo sofrimento e pelo prazer, continua incapaz de fazer parte de modo amplo e consciente da grande vida do universo. Para fazer isso, deve permanecer firmemente “em sua própria natureza”; e então avança mais, na direção de que seja alcançada a meta de todas as outras almas que ainda lutam ao longo do caminho.  Mas, claramente, outros aforismos sobre isso seriam desnecessários, além de terem uma natureza tal que não seriam compreendidos, para não mencionar que seria inútil transmiti-los.
 
 
 
Que Ishwara possa estar por perto e ajudar aqueles que lerem esse livro.
 
 
OM
 
 
 
NOTAS:
 
[1] Kaivalya, em Sânscrito. Outros autores usam as palavras Independência, ou Solidão, ao invés de Isolamento.  (N. ed. bras.)
 
[2] Eu superior reencarnante – no original em inglês, “incarnating  ego”. “Ego”, em português coloquial usado no Brasil, significa hoje predominantemente  “o aspecto egocêntrico da personalidade inferior”. (N. ed. bras.)
 
[3] Dia de Brahma – no esquema cronológico da cosmologia esotérica, um Dia de Brahma corresponde a 2.160 milhões de anos e  constitui um dos ciclos  de manifestação ativa do universo. As Noites de Brahma são períodos de não-manifestação.
 
[4]  Isto é, há diferenças entre passado e futuro, e por isso ambos existem e não  são reduzidos à não-existência.  (N. ed.bras.)
 
[5] Três qualidades, ou três gunas, três características da natureza. (N. ed. bras.) 
 
[6]  Modificações das três qualidades ou  “gunas”  citadas acima. (N.ed.bras.)
 
[7] Veja o Livro II. (N. ed. bras.)
 
 
 
[Final do Livro IV e Final da Obra “Aforismos de Ioga”]
 
 
 
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Esta obra, 'Aforismos de Ioga, de Patañjali',  versão de William Judge, consta de cinco partes: o Prefácio e quatro Livros.  Para ler as outras partes da obra, volte para a abertura desta seção temática e clique na parte desejada.
 
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