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O Quarto Objetivo do Movimento

Uma “Divisão Especial” no Movimento Esotérico 

 

 

Um Estudante de Teosofia

 

 

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O texto a seguir foi publicado inicialmente

no boletim “O Teosofista”, de julho de 2007, sob o

título “Uma Divisão Especial no Movimento Teosófico

 

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No seu famoso texto de 1886 “O Programa Original da Sociedade Teosófica”,   Helena P.Blavatsky  re-examina os primeiros momentos da criação do movimento teosófico.  Ela  conta que os Mestres não disseram aos dois principais fundadores (H.S. Olcott e ela mesma) o que eles tinham que fazer para organizar o movimento. Mas HPB acrescenta: 
 
“Embora os dois Fundadores não tenham recebido ordens sobre o que deviam fazer, eles foram claramente instruídos sobre o que nunca deveriam fazer, o que eles tinham que evitar, e sobre aquilo que a Sociedade nunca deveria tornar-se. Organizações como igrejas, seitas cristãs e espíritas foram mostradas como os futuros contrastes em relação à nossa Sociedade”. [1]
 
Ao mesmo tempo, H.P.B. explicou que deveria haver um completo respeito pelas  crenças religiosas de cada pessoa.
 
Após o abandono da proposta original de trabalho, a chamada “Igreja Católica Liberal” cumpriu um papel central na Sociedade Teosófica de Adyar, e ainda hoje permanece agarrada a ela. No entanto, passaram-se já oitenta anos desde o fracasso do  projeto messiânico mundial desta igreja, no qual Jiddu Krishnamurti deveria ter representado o papel pré-fabricado de “avatar” e “Senhor Cristo”.  É tempo, pois, de retomar o bom senso. 
 
O ponto importante a ser ressaltado é  o contraste direto entre as igrejas, de um lado,  e o movimento esotérico autêntico,  de outro.  A oposição do movimento ao dogmatismo deveria ser ativa e criativa, conforme estabelecia o quarto objetivo do movimento,  descrito pela sra. Blavatsky no mesmo texto. De fato, H.P.B. afirma que nos primeiros tempos havia mais do que três objetivos.
 
O primeiro era formar um núcleo de fraternidade universal. O segundo era ignorar distinções de raças, posição social ou crenças. O terceiro era promover o estudo das filosofias orientais. E  então ela descreve um  quarto objetivo:
 
“4. Fazer oposição de todas as formas possíveis ao materialismo e ao dogmatismo teológico, demonstrando a existência na natureza de forças ocultas que são desconhecidas pela ciência,  e a presença de poderes psíquicos e espirituais no homem; tentando, ao mesmo tempo, ampliar a visão dos espíritas ao mostrar a eles que há muitas outras forças em ação, durante a produção de fenômenos, além dos ‘espíritos’ dos mortos. A superstição tinha que ser denunciada e evitada; e as forças ocultas, benéficas e maléficas ― que sempre nos rodeiam e manifestam sua presença de várias maneiras ― deveriam ser reveladas de acordo com as nossas melhores habilidades”.  [2]
 
Essa, porém,  é apenas a ponta do iceberg anti-dogmático que espera pelos Titanics “religiosos”, inclusive no século 21.
 
Nas “Cartas dos Mahatmas”, há algumas frases no mínimo significativas, em uma mensagem recebida pelo sr. Alfred Sinnett:
 
“A Europa é grande, mas o mundo ainda é maior. O sol da Teosofia tem que brilhar para todos, não para  uma parte. Há muito mais neste movimento do que o que você percebeu até agora, e o trabalho da S.T. está vinculado a um trabalho similar que está sendo realizado secretamente em todas as partes do mundo.  Mesmo na S.T. há uma seção, dirigida por um Irmão grego, sobre a qual nenhuma pessoa da Sociedade sabe, com exceção da velha senhora e de Olcott; e mesmo este sabe apenas que o trabalho avança e ocasionalmente executa alguma ordem minha com relação a ele. (...) A Europa não será descuidada, nunca tenha receio disto; mas talvez você não possa antecipar como a luz será derramada lá.” [3] 
 
Essa passagem pode ser associada a outro trecho de uma carta de um Mestre, recebida por Sinnett apenas dois meses antes, em janeiro de 1882.  Essa foi escrita por D.K. por ordem de um Adepto. A carta diz:
 
“Também devo dizer que você reconhecerá em um certo  sr. Bennett, da América do Norte, que chegará em breve a Bombaim, uma pessoa que, apesar do seu nacionalismo, que você tanto detesta, e das suas tendências excessivamente céticas em relação às religiões, é um dos nossos agentes (fato que ele desconhece) no empreendimento de levar a cabo o plano para a libertação do pensamento ocidental de credos supersticiosos.”  [4]
 
A confluência dos fatos mencionados é clara.  A meta é  libertar o pensamento ocidental dos dogmas religiosos, e há uma divisão no movimento teosófico sob a direção de um Adepto grego, isto é, ocidental.
 
Levando em conta o que foi mencionado acima, podemos resumir em sete pontos alguns dos principais acontecimentos e tendências na história do movimento, desde a morte de H.P.B em 1891:  
 
PRIMEIRO  

Tanto subjetivamente como no plano objetivo, o movimento deixou de interagir com a intensidade de antes em relação ao mundo externo. Perdeu o contato mais amplo com “a grande órfã”, a humanidade como um todo.  Fechou-se em parte como uma seita fragmentada e interessada sobretudo na auto-preservação.
 
SEGUNDO

Simultaneamente, o movimento deixou de criticar as religiões dogmáticas.  Esqueceu o “quarto objetivo” mencionado acima. Deixou de lado documentos que mostram a importância de combater o dogmatismo das religiões exotéricas, como “Carta de Prayag”, a Carta número 88, e a Carta de 1900, entre outros. 
 
TERCEIRO 

Em pouco tempo, por razões de “luta por poder político interno”, o movimento ficou mais e mais dividido e fragmentado. 
   
QUARTO 

Setores do movimento começaram a buscar uma sensação de segurança e estabilidade através da uniformidade de pensamento, esquecendo deste modo que uma real segurança só pode ser encontrada se houver coragem de  preservar a diversidade e o contraste.  Isso levou a um “quietismo teosófico”, uma espécie de “imobilização mística da alma” que, aliás,  também é denunciada nas Cartas dos Mahatmas. Um Mestre diz o seguinte a respeito do movimento teosófico na Inglaterra, no início da década de 1880:  
 
“ ... A S.T. britânica não dá praticamente um só passo adiante. Seus membros pertencem à Fraternidade Universal, mas só de nome, e gravitam no melhor dos casos para o quietismo, uma paralisia completa da alma. São intensamente egoístas em suas aspirações e colherão apenas a recompensa do seu egoísmo.” [5]    
 
QUINTO

Apesar de todas essas limitações, grande parte do movimento gradualmente reaproxima-se do programa original e da literatura autêntica.  Esse é um esforço de longo prazo, que ainda prossegue.  A origem desta tendência histórica está ligada à formação da Loja Unida de Teosofistas em 1909 e à adesão a ela do líder teosófico indiano B.P. Wadia em 1922.  O fato mais visível dessa corrente de acontecimentos ocorreu sem a participação da LUT, e é a publicação em Adyar dos Escritos Reunidos de HPB (“Collected Writings”). Os Escritos Reunidos foram preparados por Boris de Zirkoff, um membro destacado da S.T. cuja sede internacional está em  Pasadena, nos EUA.    
 
SEXTO 

Ritualismos como a “maçonaria leadbeateariana”, a igreja católica “teosófica” e o “Rito Egípcio” (uma má imitação do Rito de Cagliostro) estão gradualmente perdendo importância na ST de Adyar. Isto ocorre  desde 1953, quando N. Sri Ram assumiu a liderança.  A lenta perda relativa de poder do ritualismo teve uma pequena aceleração quando a sra. Radha Burnier (filha de Sri Ram) assumiu a liderança em 1978-1980. No entanto, o processo continua muito lento e os mecanismos de acobertamento da verdade histórica e da proposta original ainda  prosseguem sua lenta agonia. 
 
SÉTIMO

A grande potencialidade positiva do movimento, que também estará disponível no futuro mas já pode ser desenvolvida agora, inclui um fato aparentemente simples.  Se abrir a ação teosófica  em direção ao mundo e valorizar ao mesmo tempo o seu programa original,  o movimento pode tornar-se moralmente muito maior do que os seus conflitos inter-grupais e suas pequenas formas de crença cega e apegos à rotina.  Assim o movimento poderá exercer a compaixão universal com força renovada. Poderá aceitar a verdade e os inevitáveis contrastes, e resgatar o quarto objetivo formulado por H.P.B., ao mesmo tempo que se vê livre dos seus apêndices ritualísticos. De um ponto de vista mais profundo, não se pode pensar que a Sociedade Teosófica seja a única proprietária dos erros do movimento. Longe disso. Do mesmo modo, os muitos méritos e acertos do movimento não pertencem apenas  a esta ou aquela agrupação. Não há separação exceto na casca externa. A fragmentação que ocorreu desde 1891 tem sido muito mais aparente do que real.
Ninguém pode “atirar a primeira pedra”, portanto ― embora todos possam, e devam, dizer francamente o que vêem e percebem.
 
 
NOTAS:
 
[1] “The Original Programme of the Theosophical Society”, H. P. Blavatsky, TPH India, 1974, 76 pp., ver p. 3. 

[2] “The Original Programme of the Theosophical Society”, H. P. Blavatsky, TPH India, ver p. 2.

[3] “Cartas dos Mahatmas Para A. P. Sinnett”, Editora Teosófica, Brasília, 2001, edição em dois volumes, ver volume 1, Carta 48,  p. 220.

[4] “Cartas dos Mahatmas Para A. P. Sinnett”, Editora Teosófica, Brasília, 2001, edição em dois volumes, ver volume 1, Carta 37, p. 180.

[5] “Cartas dos Mahatmas Para A. P. Sinnett”, Editora Teosófica, Brasília, 2001, edição em dois volumes, ver volume 1, Carta 11, p. 76.
 
 
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Para ter acesso a um estudo diário da teosofia original, escreva a lutbr@terra.com.br e pergunte como é possível acompanhar o trabalho do e-grupo SerAtento.
 
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