Pomba Mundo
 
Um Diálogo Sobre a
Dimensão Espiritual das Cidades
 
 
Joana Maria Pinho (Coord.)
 
 
O Despertar da Alma Coletiva
 
Imagens de Belo Horizonte, em Minas, e Vila Velha, no Espírito Santo 
 
 
 
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Nota Editorial:
 
A cada semana os associados
luso-brasileiros da Loja Unida de
Teosofistas (LUT) debatem por e-mail um
tema de estudo.  A coordenação é rotativa.
O texto a seguir reproduz um diálogo dos
associados sobre a vida espiritual das cidades.
Poucos dias depois do estudo, seu conteúdo  foi
transcrito na edição de  julho de 2012 de “O
Teosofista”, mantendo-se a linguagem coloquial.  
Todos os artigos citados nas notas numeradas
estão disponíveis em nossos websites associados.
 
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1. Joana Pinho, desde Santa Maria da Feira, Portugal
 
Caros Amigos,
 
Trago para o estudo da semana o tema do despertar coletivo da alma. Pela visão abrangente, e pela confiança na vida, escolhi o texto “A Feliz Cidade do Futuro[1] .
 
“A alma está presente em todas as coisas”, diz o artigo. Os desafios individuais servem para evoluirmos também coletivamente. Na mesma medida em que vamos fortalecendo a proximidade com a nossa alma interior, torna-se possível perceber a alma no exterior. Nosso olhar vai ao encontro da natureza que o movimenta. Para ver, conhecer e trabalhar com a alma coletiva, temos de observar com a alma. O movimento das cidades reflete a alma, e nos dá mensagens sobre a sua evolução. 
 
É certo que temos nas nossas cidades um ambiente asfixiante. Violência, poluição, egoísmo, são alguns dos elementos ambientais que sufocam a alma interior e exterior. Penso que a confusão vivida na maior parte das cidades resulta da falta de conhecimento do poder criativo e da ignorância da “essência sutil inspiradora”.  
 
Minha cidade sofre poluição psíquica, emocional e espiritual. Ela tem a sua prisão no culto ao sofrimento e à fofoca. Por desconhecimento do seu potencial, pessoas alimentam estados mentais inferiores. Quando se encontram, alguns entram em competição para ver quem possui mais e melhores bens e quem tem a doença mais grave…. Mais parece o muro das lamentações… mas a lamentação não procura a cura ou a correção; o que quer é roubar a atenção… como se criar mais lamentadores fosse a missão.
 
Contudo, é visível uma força maior. Santa Maria da Feira é uma cidade antiga. É povoada há milhares de anos.  Devido à sua  posição geográfica, tornou-se um local de encontro e de passagem de diversos povos. Temos um Castelo fora do vulgar e o espaço em torno dele é um belo jardim, repleto de velhas árvores, heras, esquilos, pássaros… um local onde a alma nos toca e nos sorri tranquilamente.
 
O castelo da Feira
 
O castelo da Feira (foto) é famoso pelas suas quatro torres
 
 
Esta região da cidade, outrora um local de dor, é agora um espaço de encontro, de descoberta e celebração. Temos outro jardim de igual beleza no Europarque, um centro de congressos, de cultura e de lazer. Os ritmos da natureza estão bem presentes nestes espaços. 
 
A alma da Feira é sábia, otimista, fraterna. Nesta cidade, e em todas as outras, um movimento é percebido: “o surgimento de novas relações de produção e novos laços humanos baseados em uma filosofia de vida que transcende o mundo visível dos cinco sentidos e busca valores permanentes”. O despertar da alma coletiva resulta do alimentar desta tendência e assim as cidades vão resgatando os ritmos naturais da vida.
 
É impossível, a curto prazo,  erguer uma cidade plenamente equilibrada, devido à  complexidade dos desafios humanos.  É certo que há muito a ser feito e que não conseguimos mudar o mundo de um dia para o outro. Isso é obtido com paciência, focando nossa atenção no novo, nas mudanças necessárias ao aperfeiçoamento, e agindo de acordo com o equilíbrio coletivo. Assim preparamos a cidade do futuro, solidária, justa, feliz: “o sonho de hoje é a realidade de amanhã”. De forma gradual, o velho dá lugar ao novo. A alma desperta.
 
Despeço-me destacando as palavras de Robert Owen citadas em “A Feliz Cidade do Futuro”:
 
“Chegou o momento em que uma mudança deve ser produzida. Uma nova era deve começar. O espírito humano, que até agora esteve envolvido nas trevas da ignorância, deve finalmente iluminar-se. É chegado o tempo em que todas as nações do mundo, em que todos os homens de todas as raças e de todos os climas sejam levados a um novo tipo de conhecimento. Haverá uma só linguagem e uma só nação. As grandes invenções modernas, os melhoramentos e o progresso contínuo das ciências técnicas e mecânicas (que, sob o regime do individualismo, aumentaram a miséria e a imoralidade dos produtores industriais) estão destinados, depois de ter causado tantos sofrimentos, a destruir a pobreza, a imoralidade e a miséria. As máquinas e as ciências são chamadas a fazer os trabalhos penosos e insalubres.” 
 
Obrigada. Abraços, Joana 
 
2. Carlos Cardoso Aveline, de Brasília
 
Obrigado. Excelente.
 
Cada cidade tem um espírito e um clima mental próprios. O filósofo francês Maine de Biran fez estudos sobre a relação entre o clima e o estado mental, entre o ambiente natural e as emoções. Creio, por exemplo, que as cidades de clima mais frio levam seus habitantes a um estado mental diferente das cidades em que reina o calor. Assim como as cidades montanhosas, ou as cidades que estão à beira do mar. O tamanho da cidade também influi. As pequenas cidades têm um clima humano diferente das grandes cidades. Cada cidade tem sua atmosfera física e astral próprias, e também uma atmosfera psíquica e espiritual superior.
 
Assim, as cidades, vistas como coletividades, não são necessariamente físicas. O movimento teosófico é uma grande cidade planetária sutil, com algumas dezenas de  milhares de habitantes.  É um “lugar” vibracional. Tem sua atmosfera própria, seus cidadãos, suas praças de debate, seus vizinhos, seus centros culturais e bibliotecas. Os bons websites e e-grupos são centros culturais que funcionam em vários idiomas. O produto das suas pesquisas teosóficas é utilizado em vários locais, e repercute por toda parte. 
 
Devemos lembrar que há muito desespero e egoísmo absolutamente desnecessários, hoje, e eles ocorrem apenas pela ausência de uma visão correta de futuro,  e pelo desconhecimento do potencial sagrado e luminoso do ser humano, a ser desenvolvido tanto individual quanto coletivamente. Devemos e podemos registrar na mente coletiva as imagens da potencialidade sagrada cujo desenvolvimento é o próximo passo evolutivo.
 
A nova civilização, com suas cidades que expressam o espírito elevado e a ajuda mútua, começa no plano sutil. Ela surge no plano da visão, da antevisão e das metas criativamente organizadas.
 
3. Arnalene Passos do Carmo, de Belo Horizonte, MG
 
Excelente estudo da Joana. Inspiramos e somos inspirados em nossas relações na família, no trabalho, no bairro e na cidade como um todo. Uma cidade arborizada tem suas floradas durante o ano inteiro. É um espetáculo bonito caminhar nas praças e ruas com árvores embelezando e perfumando o ambiente. Aqui em Belo Horizonte valorizamos em especial, a florada dos ipês.  
 
Viver numa capital tem um preço alto a pagar em qualidade de vida. O relógio é um grande general que determina o ritmo da marcha. As pessoas muitas vezes parecem cumprir automaticamente suas agendas. Um passeio ao meio rural é a solução encontrada para descansar nos finais de semanas. O andar descalço, o pequeno riacho, o cantar dos pássaros, o convívio com plantas e animais têm o poder curativo para a doença tipicamente urbana que é o estresse.
 
Nos diz o texto:
 
“Desse ponto de vista, nenhuma crise ou grau de violência urbana pode alterar a realidade básica: as cidades brasileiras são grandes conglomerados de almas, verdadeiros oceanos de energia espiritual, mental e emocional. Os dramas que elas vivem constituem os desafios necessários para que a alma coletiva desperte, perceba o seu próprio potencial de paz e harmonia – e mude o mundo físico como consequência da sua mudança interior.”
 
Os desafios são superados pelo encontro do espaço interior que é fonte de equilíbrio e paz independentemente das condições externas. Estando imersos magneticamente, cabe-nos exercitar a atenção, a presença consciente na escolha por ambientes mais favoráveis e encontros mais produtivos. 
 
Que possamos contribuir com ações positivas na contramão do consumo e das lamentações comentados pela Joana.
 
4. Celina de Jesus Cardoso, desde Vila Velha, ES
 
Hoje tivemos reunião do meu grupo de ECOLOGIA e nossa coordenadora pediu que fizesse a reunião. E ainda disse, “escolha um texto daqueles que envia pra gente e faça uma reflexão!”
 
Pensei assim, “vou levar o texto de Estudo que Joana trouxe, tem tudo a ver com nosso tema!!”
 
Puxa, fiquei um bocado feliz.
 
Eu estava nervosa, cheguei mais cedo para preparar a sala…e trocaram a gente de sala, tudo aconteceu numa sala bem mais bonita, silenciosa ( nós sempre estamos ao lado da sala do Coral e escutamos a música o tempo todo!!)
 
Bem, esperei todos lá embaixo para avisar da troca de sala. Eu levei meu flip-chart com as frases coloridas de Mário Quintana, Júlio Verne, Robert Owen, Frank Lloyd Wright… assim poderiam me ajudar na pronúncia e para ficar mais dinâmica a leitura. 
 
Eu também escrevi o título do texto, o autor, o site…iniciei a leitura pausadamente, após todos já sentados, fiz uma respiração acalmadora (para mim principalmente), pedi que fechassem o olho em meditação com gratidão pela  vida.
 
E fui lendo o texto, olhando para cada um, bem calmamente…se comentavam algo eu esperava, ouvia e depois continuava.
 
Devo contar que eu sou a única não católica do grupo…
 
Quando chegou na parte do Feng Shui, eu parei de ler e distribuí para sete pessoas,  os 7 pontos que podemos acrescentar para uma cidade orgânica.
 
Assim: número um com Zezé, número dois com Lílian, número 3 com Taíse, número quatro com Luíza, número cinco com Rita, número seis com Gustavo, número sete com Elza.
 
Esqueci de dizer que durante minha leitura, a Zezé disse … “repete esse parágrafo, é o nosso grupo!!”
 
O parágrafo diz: “A alma coletiva de uma população urbana ameaçada pela contaminação ambiental, violência, pobreza, e corrupção dos administradores está necessariamente confusa e desorientada. Mas ainda vive e espera por uma chance de viver melhor.”
 
Outro ponto em que me fizeram parar foi:
 
“Essa nova sociedade surge no meio da antiga, trazida por uma nova religiosidade vivencial e não dogmática….”.
 
Cada um ia lendo seu trecho, paravam para comentar, contar casos…muito boa a participação, todos pediram o texto (eu levei) e ainda disseram… “é tanto assunto que podemos estudar o texto em outras reuniões”.
 
Acreditam??
 
Concordaram que cada casa deve ser um templo, com respeito e cuidado… e a conclusão foi que basta, sim, a nossa decisão de fazer…fazer tudo o que estiver ao nosso alcance, errando, aprendendo, acertando…repetindo… e que povos e cidades têm alma. 
 
Perceberam a questão da sintonia…e que mudamos aqui fora com a mudança interna.
 
Perguntaram no início o que é MÔNADA. Está aí outro acontecimento que a Teosofia fez acontecer em minha vida… ainda tenho muito que aprender, mas com calma vou passando Teosofia para todos em minha volta. Agradeço muito a Joana por ter escolhido o tema. É mesmo preciso despertar a ALMA COLETIVA agindo de outra maneira, pensando de outra maneira…
 
5. Rejane Chica Tazza, de Porto Alegre, RS
 
Essas experiências assim, surgidas no dia a dia, me tocam profundamente.  É no meio das mais variadas situações que podemos fazer nossa parte e justificar nossa presença nesse nosso caminhar pela vida!
 
Por aqui, em Porto Alegre, a vida parece rondar muito mais as colunas sociais, os eventos do “ter”.
 
Paralelo a isso, vemos pessoas preocupadas em ainda passar pelas ruas, saudar um vizinho, um idoso, reparar no canto do passarinho naquela árvore defronte às suas casas, ver uma nova flor que brotou no canteiro da rua…Sim, ainda vemos canteiros nas ruas, daqueles bem simples, sem precisar de grandes floriculturas para assinar os projetos. São feitos por pessoas que gostam desse contato com a terra e querem, ao seu modo, ajudar a tornar sua cidade melhor. 
 
Essas pessoas aparentemente não são muito numerosas, mas posso acreditar que são parte integrante de um grupo que acredita que não é o carrão do último tipo – que por sua vez, polui, entope cada vez mais as ruas, e torna o trânsito quase impraticável – que as fará grandes.
 
Elas sabem que decidindo ir a pé até à padaria, à escola ou trabalho, estão fazendo um pouco pela sua cidade e por si mesmas.
 
6. Silvia Caetano de Almeida, de Goiânia
 
Parabéns pelo estudo bem elaborado.
 
Penso que a melhor forma de olharmos o mundo é com a visão que só o coração nos permite. Assim vemos o que há de melhor em cada ser humano e esta visão gera pensamentos plenos de harmonia, que contribuem para a construção de um mundo melhor. 
 
7. Regina Pimentel de Caux, de Nova Era, MG
 
Temos um excelente estudo, num momento muito especial, quando no Brasil nos preparamos para as eleições municipais em outubro e enquanto os partidos políticos elaboram os planos de governo.
 
Carlos mencionou o clima das cidades e das cidades pequenas, como é o caso de Nova Era, onde vivo há 30 anos. É uma pequena cidade de Minas Gerais, de relevo montanhoso, cortada no meio por um belo, forte e sonoro rio. Ontem, vindo do trabalho a pé pela beira rio, já noite, parei para apreciar treze capivaras que comiam calmamente grama a uns poucos metros do calçadão. Ali pude ficar um tempo razoável para contemplar aquela beleza natural. Durante o dia podemos apreciar as garças, os movimentos dos diversos pássaros, borboletas, libélulas, a beleza do rio, seu fluir firme e incessante, o esplendor das árvores, das montanhas, o ar puro. As noites são muito estreladas e a lua sempre está lá. No inverno, as manhãs e madrugadas surgem cobertas de cerração. As pessoas são muito conhecidas. Quando saímos pelas ruas sempre encontramos gente que cumprimenta e quer conversar. Os agrados e as trocas fazem parte da rotina.
 
Numa cidade assim, vivemos com mais tranquilidade e experiências das mais diversas. Como nos disse Joana, “O movimento das cidades reflete sua alma e nos dá mensagens sobre a sua evolução.”
 
Toda cidade tem os seus desafios  e o despertar da alma individual e coletiva ocorre também de forma natural ou incidental. Entretanto, surgem alguns movimentos numa nova direção que inspiram sentimentos positivos. Eles são perceptíveis e vão dando conhecimentos que permitem viver com sabedoria.
 
Também temos aqui, como na cidade de Joana, os muros de lamentações, o egoísmo, a mentira, o poder, a separatividade, os dogmas. É imprescindível realizar movimentos para superar os dramas e trabalhar de maneira particularmente concentrada pela paz, harmonia e unidade humana, pois eles são necessários para o crescimento da consciência e a consagração à verdade que tem que ser realizada, individual e coletivamente. Sustentar e avançar o movimento é fundamental.
 
Não se deveria organizar a vida de acordo com regras externas, artificiais, mas de acordo com uma consciência interna, sob o controle de  uma consciência superior que se imponha. Do contrário a vida torna-se inexpressiva e irresoluta.
 
A cidade pertence à humanidade como um todo. O mundo é um só e cada um é co-responsável por tudo que nele se efetua. E o que pede cada vez mais nossa consciência participante, nossa abertura e nossa vontade ativa são os movimentos que visam, preparam e constroem o futuro. O importante é ver, escolher o ideal mais vasto e profundo, baseado em valores permanentes, colocá-lo como objetivo e, aderindo a ele cada vez mais totalmente, começar o trabalho.
 
Sabemos que os verdadeiros acontecimentos em nosso mundo precisam de um tempo maior para amadurecerem e darem bons frutos. Assim, o crescimento de uma cidade, até seu próprio corpo, sua maturação global, sua integração na humanidade ultrapassa certamente a duração curta de uma vida comum.
 
Cada um deve saber se quer se associar a um mundo velho pronto para a morte, ou trabalhar para um mundo novo, cooperativo e melhor, que se prepara para nascer. A boa vontade deve ser grande. Quanto mais conscientes formos em nosso contato com o ser interior, tanto mais exatos serão os meios dados.
 
HPB nos diz: “…os poderes do céu estão dentro de nós; a natureza das inteligências que guiam a força  do mundo estão unidas à nossa natureza, e se entendermos isso e nos esquecermos de nosso eu exterior, esses ventos poderão ser nossos instrumentos.” [2]
 
Parabéns a Celina pelo inspirador trabalho. É um jeito novo de caminhar com mais sabedoria.
 
8. Joaquim Soares, desde Aveiro, Portugal
 
Está muito bom o diálogo em nossa sala de estudo. Este é um tema fascinante e de enorme importância no momento presente.
 
Tenho a felicidade de viver numa pequena cidade.
 
Todos os dias olho da varanda o campo cultivado da vizinha da frente e vejo a sua lenta transfiguração ao longo do ano, mudando de culturas conforme o mês e a estação. Costumamos chamar à nossa rua a “rua dos gatos”, pois ela é ocupada por um bando de felinos que por ali vive há anos, alimentados pela generosidade de vários vizinhos, em especial de um simpático senhor que faz questão de os mimar todos os dias. A saída de um dos respiradouros cá do apartamento é ocupada sazonalmente por ninhos de pássaros que com a sua algazarra matinal tornam o acordar sempre algo agradável. O carteiro, um conhecido de infância, faz questão de entregar pessoalmente a correspondência mais volumosa no meu local de trabalho só para que eu ou Magda não tenhamos de ir depois ao posto de correio levantar as encomendas. A nossa vizinha da porta da frente, uma senhora já idosa que vive sozinha, faz questão de nos avisar sempre que se ausenta para que não fiquemos preocupados, e nós fazemos o mesmo com ela. É raro numa ida ao teatro ou a um evento local qualquer não conhecermos a maioria das pessoas presentes, e numa repartição pública, num café ou numa loja quase sempre conhecemos o funcionário ou o proprietário. As conversas na rua, em particular com as pessoas mais velhas, andam à volta do tempo e de como vai a vida, se tudo corre bem e acaba sempre com votos de saúde, um bom dia e o aviso de que se for preciso alguma coisa podemos contar com eles.
 
Toda a gente sabe um pouco da vida de toda a gente. Claro que existe o mexerico e o falar da vida alheia. Mas fora esses hábitos menos saudáveis, todos sabem que podem contar com os outros em caso de alguma necessidade.
 
Viver numa cidade ou vila pequena é sentir que essa ligação com os outros é mais próxima e autêntica. Longe das grandes catedrais do consumo, os centros comerciais das grandes cidades, o pequeno comércio é uma rede de economia solidária e mais justa. O mercado todo o final de semana é o maior exemplo desta organização comunitária. Agricultores e comerciantes de várias zonas trazem os seus produtos plantados e colhidos no tempo certo. Há variedade e qualidade. Há um respeito pelos ritmos naturais. Há preços justos e troca de sorrisos. Há clientes e comerciantes que já o deixaram de o ser, tantos são os anos que se conhecem, sendo agora o negócio feito entre velhos conhecidos e amigos.
 
Sendo o relevo da cidade bastante plano o uso da bicicleta está generalizado há décadas. Em tom de brincadeira eu costumo dizer que vivo na “Beijing” de Portugal.
 
Perdidas no interior, de norte a sul e nas ilhas portuguesas, existem outras pequenas cidades, vilas e aldeias no interior, onde o tempo corre ainda mais devagar, onde o contato com a natureza é mais profundo, em que as pessoas são de uma simplicidade desarmante e de uma amabilidade enternecedora, em que cada uma é um poeta da vida com as mãos calejadas de trabalhar a terra. São numerosas as localidades onde o número de habitantes é muito reduzido e onde o progresso não chegou para manchar a pureza natural das gentes, da paisagem e da alma.
 
Aí, a palavra e a honra têm valor, as chaves ainda ficam nas portas, os vizinhos se ajudam mutuamente, as tradições preservam um certo paganismo ancestral e há uma ligação com os elementos da natureza e as forças espirituais. Aí o passado convive lado a lado com o presente e com o sonho do amanhã, e menires, pinturas rupestres e castelos se misturam com pastores que ligam para a família através do celular. Um outrora menino da terra é agora o presidente da junta de Freguesia e quando necessário leva no seu próprio carro os anciãos até ao posto médico ou aos correios. Aí, a marcha do sol e das estações do ano continua a marcar o ritmo diário das vidas das pessoas.
 
Basta dizer, por exemplo, que as histórias mais marcantes e heroicas que conheço de luta contra a ditadura e a repressão não aconteceram nas grandes cidades ou nas vidas dos exilados, mas nas ruas e nos campos das cidades e vilas do interior, na população armada com a voz e a enxada e unida por um espírito de comunidade, lutando por direitos iguais para todos e na defesa dos mais fracos e pobres.
 
Apesar de essas regiões sofrerem cada vez mais de preocupantes níveis de “desertificação” populacional, eu julgo que esse é o Portugal do futuro, ao mesmo tempo que também é o Portugal do presente.
 
É aquela parte de Portugal que está em “suspenso”, num tempo fora do tempo, longe do barulho e da poluição, do trânsito e dos jogos políticos, das multinacionais e dos barões da finança, do passo apressado e da visão de curto prazo, dos juros e da dívida, da corrupção e do culto da aparência, aguardando o despertar de uma nova consciência.
 
Lentamente, começamos a ver grupos de jovens e menos jovens abandonando as grandes cidades e rumando para o interior em busca de um ritmo mais condizente com a vida que anseiam, uma vida mais simples e mais profunda.
 
Ao mesmo tempo, o clima do interior e da vida das pequenas cidades e aldeias vai chegando também ao litoral e às grandes cidades num movimento harmonizador, através de várias formas: o artesanato, a agricultura biológica, o reavivar das tradições culturais e espirituais, a preocupação com a vida comunitária, com os espaços naturais, com o cultivo da vida ao ar livre, etc.
 
Cada vez mais pessoas tomam consciência de que a forma de organização social que sobrevive nas pequenas comunidades, baseada na cooperação, na economia solidária, no comércio justo e ecologicamente responsável, no espírito democrático e no respeito pelos valores espirituais e éticos, é aquela que se apresenta como a alternativa natural ao modelo mais que esgotado de consumismo desenfreado e ao ambiente asfixiante das cidades modernas.
 
Tudo o que escrevi acima existe e está acontecendo em Portugal, no Brasil e em muitos outros países em todo o mundo.
 
Se a isto juntarmos a influência benéfica que cada um de nós pode irradiar e a popularização da Teosofia junto de um número crescente de cidadãos, então, tal como termina o texto “A Feliz Cidade do Futuro”, que Joana trouxe, podemos dizer:
 
“É assim que se cria a cidade da nova era. Não só criticando ou lamentando o que está velho e em desagregação, mas construindo com audácia o novo que cresce inevitavelmente a cada dia, de modo silencioso e quase invisível.”
 
9. Evaldo Berwig, de Ijuí, RS
 
Centro da cidade de Ijuí
 
Centro da cidade de Ijuí
 
 
A partir de nossas vivências, constroem-se as cidades. As transformações acontecem a partir  dos sonhos, dos projetos e das ações daqueles que agem com mais intensidade. O verdadeiro conhecimento é o que eleva o desenvolvimento de todos, mesmo que a maioria desconheça aquilo que realmente interessa, que faz a diferença e que muda para melhor o desenvolvimento de uma cidade.
 
É no espaço da encarnação atual que o cidadão tem a oportunidade de aproveitar o melhor de si, conhecendo-se, melhorando sua vida e a de todos. A filosofia esotérica dá estas condições através do conhecimento dos sete princípios da consciência humana.[3]
 
A insatisfação pode levar à comodidade, ao declínio ou à exaltação. O aperfeiçoamento dos valores existenciais no decorrer da vida transformam e elevam o perfil de uma cidade. A Educação do Conhecimento, texto de Joaquim, dá um enfoque de como estas circunstâncias podem ocorrer de uma maneira a trazer benefício a todos. [4]
 
Para desenvolver o equilíbrio emocional e intelectual é necessário conquistar, desenvolver a liberdade espiritual. O desenvolvimento da cidadania tem no conhecimento das verdades universais a fonte de inspiração inabalável e eterna. O texto A Luz da Alma Imortal trata de questões essenciais que merecem atenção para serem compreendidas. [5]
 
A discussão em torno do exercício da cidadania exige a compreensão das verdadeiras causas das dificuldades e dos males de uma comunidade. Necessita ultrapassar as fronteiras do conhecimento pessoal-intelectual para determinar o fator causador destes efeitos.
 
Erros e enganos se sucedem através de uma cultura desgastante e autoritária sendo o povo merecedor de renovação através do conhecimento pela verdade. O estudante de teosofia tem na responsabilidade do conhecimento as oportunidades de elevação e expansão do conhecimento universal.
 
“Até mesmo obstáculos como os dogmas religiosos já não são tão fortes como eram no passado. O progresso do pensamento e da visão crítica está ajudando as diferentes religiões a fazerem soar a nota da verdade eterna e universal, a verdade do espírito. Esta é a verdade que a vida busca e obedece, e através dela a vida encontra a felicidade em todos os tempos e lugares.” [6] 
 
É através dos testes de perseverança que a verdade passa a influenciar positivamente a evolução das cidades e da humanidade.
 
10. Joana Pinho
 
Agradeço a todos.
 
Cada cidade tem seu espírito e seus desafios. Todas elas buscam o equilíbrio. A feliz cidade está sendo construída com as ações corretas, solidárias e justas dos seus habitantes. A nova civilização conquista seu espaço a cada despertar individual.
 
Destaco das vossas participações:
 
“Os desafios só são superados pelo encontro do espaço interior, fonte de equilíbrio e paz. Ficamos menos dependentes da natureza externa.” (Arnalene)
 
“(…) A melhor forma de olharmos o mundo é com a visão que o coração nos permite. Assim veremos o que há de melhor em cada ser humano. E esta visão gera pensamentos plenos de harmonia, que só podem contribuir para a construção de um mundo melhor.” (Silvia)
 
 “Não se deveria organizar a vida de acordo com regras externas, artificiais, mas de acordo com uma consciência interna, sob o controle de  uma consciência superior que se imponha. Do contrário a vida torna-se inexpressiva e irresoluta.” (Regina)
 
“Cada vez mais pessoas tomam consciência que a forma de organização social que sobrevive nas pequenas comunidades, baseada na cooperação, na economia solidária, no comércio justo e ecologicamente responsável, no espírito democrático e no respeito pelos valores espirituais e éticos, é aquela que se apresenta como a alternativa natural ao modelo mais que esgotado de consumismo desenfreado e ao ambiente asfixiante das cidades modernas.” (Joaquim)
 
“Devemos lembrar que há muito desespero e egoísmo absolutamente  desnecessários, hoje, e eles ocorrem apenas pela ausência de uma visão correta de futuro, e pelo desconhecimento do potencial sagrado e luminoso do ser humano a ser desenvolvido tanto individual quanto coletivamente. Assim, devemos e podemos registrar na mente coletiva as imagens da potencialidade sagrada cujo desenvolvimento é o próximo passo evolutivo.” (Carlos)
 
“É no meio das mais variadas situações que podemos fazer nossa parte e justificar nossa presença nesse nosso caminhar pela vida!” (Chica)
 
Celina inspirou todo o grupo com sua experiência. Colocando-se ao serviço da alma, levou o texto “A Feliz Cidade do Futuro” até um grupo de ecologia. Assim se lançam as sementes do despertar da alma coletiva e se cria um futuro luminoso.
 
Obrigada. Abraços, Joana
 
NOTAS:
 
[1] O artigo “A Feliz Cidade do Futuro” está disponível em nossos websites associados. O mesmo vale para as demais referências. 
 
[2] “O Grande Paradoxo”, Helena Blavatsky.     
 
[3] “Os Sete Princípios da Consciência”, texto de Carlos Cardoso Aveline.
 
[4] “A Educação do Conhecimento”, Joaquim Soares.
 
[5] “A Luz da Alma Imortal”, de Carlos Cardoso Aveline.
 
[6] “A Humanidade Está Em Construção”, de S. Radhakrishnan. Assim como os artigos citados acima, este texto está disponível em nossos websites.
 
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Sobre a ecologia da mente e a teosofia do ambiente natural, veja o livro  “A Vida Secreta da Natureza”, de Carlos Cardoso Aveline.
 
A_Vida_secreta_da_Natureza_1024x1024 (1)
 
A obra foi publicada pela Editora Bodigaya, de Porto Alegre, tem 157 páginas divididas por 18 capítulos, e está na terceira edição, de 2007.
 
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