Na Capital do Brasil, em 1928,
Vivia-se Um Momento Especial da História
 
 
Carlos Cardoso Aveline
 
 
 
C. Jinarajadasa (ao centro, com chapéu), reunido com teosofistas no Rio de
Janeiro. Contando da esquerda para a direita, a penúltima pessoa é Juvenal Mesquita.
 
 
 
São escassas as informações sobre a história da loja teosófica “Rio de Janeiro”, e de outras lojas também.
 
Em seu pouco conhecido e nunca publicado dossier de 1995 sobre a evolução do movimento teosófico no Brasil, João Batista Brito Pinto afirmou ser provável que a fundação da loja tenha ocorrido entre 1925 e 1929.
 
Fazendo um trabalho paciente em meio a vários níveis de limitações, Brito estava basicamente certo.[1]
 
Vinte anos antes, Milton Lavrador registrara uma informação essencial:
 
“A 21 de outubro [de 1928], aporta ao Rio o [navio] ‘Almanzora’, trazendo entre seus passageiros o sr. C. Jinarajadasa para sua primeira visita ao Brasil (…). Ainda em outubro, fundem-se as lojas HAMSA e várias outras, nascendo desta fusão a loja RIO DE JANEIRO.” [2]  
 
A unificação que dá lugar à loja Rio de Janeiro ocorre, portanto, durante a visita de Jinarajadasa ao Rio de Janeiro.
 
Era comum durante as primeiras décadas do movimento no Brasil criarem-se lojas que logo entrariam em letargia, ou se uniriam a outras, ou mudariam de nome. O movimento tinha grande dinamismo e nem tudo nele era durável.
 
A essa dificuldade, que desafia todo pesquisador, deve somar-se o fato de que a memória histórica do movimento teosófico tem sido fraca desde o século 20, e isso se deve em parte à influência de Jiddu Krishnamurti e do seu quietismo não-pensante.
 
Krishnamurti convida os teosofistas a deixar de lado todo esforço. Para ele, é correto ignorar os processos evolutivos, desconhecer a vigência da lei do Carma, da lei da reencarnação e da lei dos ciclos, e afirmar que a ciência histórica não tem validade.  Faltou a Krishnamurti compreender que o passado, o presente e o futuro são inseparáveis, e estão inevitavelmente unidos pela severa lei do plantio e da colheita. A história de uma comunidade é o registro do seu carma. É fonte de lições valiosas. Precisa ser conhecida para que bom carma seja plantado com real eficiência.
 
Graças a Milton Lavrador, sabemos o primeiro nome da loja Rio de Janeiro e isso é significativo. A palavra Hamsa é bem conhecida em teosofia clássica e tem diversas acepções.
 
Quando vista como palavra de origem sânscrita, Hamsa ou Hansa é o nome de um pássaro mítico análogo ao pelicano Rosacruz, o Fênix. “Kalahamsa” é um dos nomes de Parabrahm e significa “o pássaro fora do espaço e do tempo”. Brahma é chamado de Hansa Vahana,  veículo de Hansa,  o pássaro.[3]
 
Uma variação da palavra, Hamsá (ou hamsa em inglês) é um talismã usado contra mau-olhado e que traz sucesso a quem o usa. É a imagem de uma mão simétrica, em que o polegar e o dedo mínimo são iguais. Popular entre árabes e judeus hoje no Oriente Médio, a Hamsá pode ter origem fenícia, e o seu mistério tem pelo menos uma proximidade geográfica com a tradição dos drusos.
 
Quando visto como um termo de origem árabe, Hamsa é o nome do fundador da seita mística dos drusos, no Oriente Médio.
 
Pouco antes do final da carta 68, nas Cartas dos Mahatmas, um Mestre de Sabedoria registra o fato de que existem Adeptos drusos. Por outro lado, Helena Blavatsky foi iniciada como membro dos drusos e escreveu extensamente sobre eles. [4]
 
Em seu dossier inédito sobre a história do movimento no Brasil, Brito anotou:
 
“Hamsa: loja teosófica, Rio de Janeiro. 07/03/1925. Sem informações a respeito de origem, temos somente o que deveria ter sido a sua primeira diretoria: Presidente, Dr. Juvenal Mesquita; Secretário, Dr. Deocleciano dos Santos, e Tesoureira, Maria Appa dos Santos.” [5]
 
A informação sobre a data de fundação é contraditória. Juvenal Meirelles Mesquita consta como presidente da loja Hamsa já um ano antes, em março de 1924 (ver página 69 do dossier de Brito). No mesmo ano, Maria Appa dos Santos era tesoureira da loja (página 74). [6] E Ailton Santoro, presidente da Loja Rio de Janeiro em 2017, mostra que, segundo os Estatutos e Regimento Interno da Loja Rio de Janeiro impressos em 1930, ela foi fundada sob o nome de  Loja Hamsa em 25 de janeiro de 1925.
 
De fato, quando uma associação é fundada, são vários e não um só os seus momentos históricos e inaugurais. Os relatos sobre a fundação podem diferir.
 
Juvenal Mesquita chegou a exercer por curto tempo um cargo decisivo na direção da Sociedade no Brasil.
 
Em 1915 ele estava ativo nas lojas do Rio de Janeiro. Em 1919, durante a formação da seção nacional, foi eleito vice-presidente ao lado de Raymundo Pinto Seidl. Quando o presidente Seidl renuncia ao cargo – por motivos de saúde – em 1927, Juvenal assume a direção da Sociedade. Pinto Seidl faleceu em 20 de julho de 1928, conforme registra Milton Lavrador, e sua saída de cena encerra toda uma primeira fase da história do movimento.
 
Em visita à loja São Paulo, já exercendo a presidência, Juvenal afirmou:
 
“A Teosofia, meus irmãos, há sido para mim a maior das dádivas que os Mestres me têm proporcionado. Há onze anos que venho trabalhando intensamente em prol da difusão desses ideais (…). Na loja Pitágoras quis o Carma que eu atuasse, como seu presidente, perto de cinco anos dos sete que dela fiz parte, e na Loja Hamsa, também como presidente, mais três, desde a sua fundação. Não sei por que os Mestres me têm feito permanecer nestes cargos de evidência (…) a não ser a boa vontade para o serviço.” [7]
 
Juvenal destacou a seguir que as lojas presididas por ele promoviam reuniões com os familiares dos associados, aos domingos. Ele via como importante o convívio entre amigos teosofistas também fora das reuniões formais de estudo.  Tinha planos grandiosos, típicos das ilusões segundo as quais J. Krishnamurti era Cristo e Avatar, devendo estabelecer a paz entre os povos no mundo todo. Havia uma euforia irracional entre os líderes da Sociedade de Adyar. As conversas imaginárias com Mestres eram frequentes. Em 1925, Annie Besant chegou ao ponto de anunciar que havia alcançado a quinta iniciação. Pensava que havia conquistado o Adeptado e era agora “Mahatma”. [8]
 
Em 1929, Krishnamurti finalmente afastou-se da Sociedade Teosófica e destruiu a maior parte das fantasias sobre iniciações e a volta de Cristo. [9]
 
No mesmo ano, Juvenal de Mesquita foi eleito presidente da seção nacional brasileira; mas por algum motivo pouco tempo depois ele renunciou ao cargo e cessaram as notícias de atividades teosóficas por parte dele.
 
Em sua edição de setembro-outubro de 1931, p. 244, “O Teosofista” informava que a Loja Rio de Janeiro tinha reuniões aos domingos às 10 horas. Eis alguns temas abordados, com os seus palestrantes:
 
“O Instituto Neopitagórico e a Personalidade de Dario Veloso”, com Gustavo de Medeiros Pontes; “Teosofia na Educação”, com Maria Emília A. dos Santos; “Os Mestres”, com Maria Luiza Osório; “Origem Gnóstica do Evangelho de S. João”, com Lourenço de M. Borges; “Debate sobre o Treinamento do MST”, aberto; e “Curso Elementar de Teosofia”, com a srta. Piper Menezes de Lacerda. A presidente da loja era Maria Luiza Osório (ver p. 248), e o endereço era R. C. Bonfim, 322.
 
NOTAS:
 
[1] “A Teosofia e a Sociedade Teosófica no Brasil – Subsídios, 1896-1946”, dossier de João Batista Brito Pinto, 1995, 105 pp., ver pp. 102-103. Veja a íntegra do que Brito escreve sobre a loja Rio de Janeiro (cada parágrafo novo é assinalado por “///”): “Dado que não foram encontrados números das edições de ‘O Teosofista’ entre alguns meses de 1925 e 1929, é provável que a fundação da Loja tenha ocorrido nesse período. /// Abril de 1930 – Eleição: Presidente, Tte. Cel. Dr. Antônio Azevedo; Vice-presidente, Dr. Oswaldo Nunes de Souza Guimarães; Secretária, Maria Luiza Osório; Tesoureiro, Pedro Celestino de Castro; e Bibliotecário, José Rodrigues de Souza. /// Abril de 1931 – Eleição: Presidente, Maria Luiza Osório; Vice-presidente, Dr. Oswaldo Nunes de Souza Guimarães; Secretário, Cap. Léo Cavalcanti e Bibliotecária, Deolinda Fernandes. /// Abril de 1932 – Eleição: Presidente, reeleita Maria Luiza Osório; Vice-presidente, Cap. Léo Cavalcanti; Secretário, Augusto Menezes Filho; Tesoureira, Dolores Carneiro Leão e Bibliotecária, Deolinda Fernandes. /// Abril de 1933 – Presidente, Dr. Oswaldo Nunes de Souza Guimarães; Vice-presidente, Augusto Menezes Filho; Secretária, Alice Schmidt Caldeira; Tesoureiro, Raymundo Lima e Bibliotecária, Irma Teixeira.”
 
[2] “O Teosofista”, edição especial comemorativa do primeiro centenário da Sociedade Teosófica, ano 64, julho-dezembro 1975, N.º 3 / 4, p. 89. Artigo de Milton Lavrador intitulado “Retrospecto Histórico da Sociedade Teosófica no Brasil”.
 
[3] Fonte: Theosophical Glossary, Theosophy Co., Los Angeles. (Popularmente atribuído a HPB, na verdade o glossário não foi preparado por ela, que supervisou apenas a primeira parte do trabalho editorial.)
 
[4] Sobre os drusos, veja em nossos websites o artigo “Old Prophecies and Atomic War”.
 
[5] “A Teosofia e a Sociedade Teosófica no Brasil – Subsídios, 1896-1946”, dossier de João Batista Brito Pinto, 1995, 105 pp., ver p. 92.
 
[6] O presente estudo não aborda a loja Hamsa de Belo Horizonte, MG.  
 
[7] “O Theosophista”, 14 de julho de 1927, p. 55.
 
[8] Veja em nossos websites associados o artigo “Besant Anuncia Que é Mahatma”, cujo subtítulo é: “Em 1925, Vários Líderes da Sociedade de Adyar Chegam à Conclusão de Que São Mestres de Sabedoria”.
 
[9] Sobre Krishnamurti e a filosofia esotérica, estão disponíveis em nossos websites os artigos “Fabricando um Avatar”, “Krishnamurti e a Teosofia”, e “Krishnamurti e as Ilusões Besantianas”.
 
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A biblioteca da Loja Independente de Teosofistas possui um arquivo sobre história do movimento no Brasil, do qual faz parte material doado por vários pesquisadores e teosofistas, inclusive João Batista Brito Pinto, ex-presidente da seção nacional da ST. Os interessados em participar das investigações históricas ou em obter dados sobre a origem das lojas mais antigas do movimento no Brasil podem escrever para indelodge@gmail.com. A biblioteca da Loja Independente está à disposição do esforço teosófico como um todo. Veja em nossos websites associados o artigo “Origem do Movimento Teosófico no Brasil”.   
 
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O grupo SerAtento oferece um estudo regular da teosofia clássica e intercultural ensinada por Helena Blavatsky (foto). 
 
 
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