Como o Adulto Cura as Feridas da Infância
 
 
Joana Maria Ferreira de Pinho
 
 
 
Cabanas de Tavira (foto) é uma vila de pescadores
próxima da cidade de Tavira, no Algarve, em Portugal
 
 
 
É preciso coragem para
enxergar as feridas. E uma dose
maior de coragem, para cuidar delas.
 
 
 
Algum tempo atrás, conversamos sobre o tema da coragem em reunião de trabalhadores voluntários da Loja Independente de Teosofistas (LIT). Carlos lançou o desafio resumindo o assunto com as seguintes palavras: “O que é, e o que não é, coragem em Teosofia; como administrar a coragem; coragem versus medo, cautela, e outros fatores.”
 
A palavra coragem, do latim “coraticum”, tem como raiz a palavra latina “cor”. Conforme Carlos destacou, “coração” é um dos seus significados. O sufixo português “agem” indica uma ação. Portanto, podemos olhar para a palavra coragem como significando o coração agindo.
 
A coragem, assim como o coração, tem vários níveis e aspectos. O coração é a sede das emoções. E nós temos emoções inferiores e superiores. O coração também é uma das moradas da alma. O ser humano tem uma alma mortal e uma alma eterna. 
 
Carlos chamou atenção para a importância dos opostos da coragem de forma a torná-la sustentável. Por exemplo, a coragem deve ser equilibrada com um certo nível de cautela. Para que a coragem seja de longo prazo é preciso temperá-la com prudência. Como em tudo na vida do teosofista, é necessário discernimento.
 
Ser corajoso não é avançar destemido sem medir consequências. É preciso pesar e avaliar os fatos e a nós próprios.
 
Para aqueles que estão conscientes da complexidade do Ser, coragem não implica negar o medo ou apagá-lo. Aliás, a coragem para existir precisa do seu oposto. A harmonia e a saúde psicológica e emocional resultam do equilíbrio entre os opostos. Mas a vida está cheia de imprevistos e há momentos em que é necessário exercer grande coragem e calar todos os medos. Em outras situações, mesmo que o medo seja vencido, a cautela deve falar mais alto. Saber esperar é fundamental.
 
A coragem nunca deve colocar o peregrino ou os outros desnecessariamente em perigo; caso contrário, em vez de coragem, o que existe é imprudência e insensatez. Para a Teosofia, a coragem é uma expressão do eu superior. Ela não corresponde à bravura do plano do eu inferior, embora por vezes possa se manifestar dessa forma. É uma qualidade espiritual que envolve agir de acordo com a verdade e os valores espirituais mais profundos, mesmo diante de desafios, medos e sofrimentos.
 
A coragem teosófica é o coração agindo em harmonia com o propósito maior da alma, é o coração transcendendo a personalidade em busca do desenvolvimento espiritual.
 
Para a Teosofia, todos os aspectos da existência são importantes. O eu inferior é valioso como instrumento da Vida Maior. A coragem pode ser vista como uma luz que brilha dentro de nós, iluminando o caminho a seguir. E a luz possibilita ações conscientes e decididas. O medo, por outro lado, é a sombra que acompanha a luz. O medo faz um alerta sobre perigos e riscos. Ele cumpre uma função na defesa da vida.
 
O medo a ser evitado é aquele que ofusca a luz, nos paralisa por completo e não nos permite viver uma série de novas e ricas experiências para o aprendizado da alma.
 
O tímido e o introvertido são muitas vezes vistos como pessoas medrosas. O medo de se expor, o medo do fracasso, do julgamento, o medo de errar, geram ansiedade e inibem os indivíduos. Muito pode ficar por dizer e fazer. O tímido quando é vencido por seus medos deixa de manifestar muito do seu potencial criativo. No entanto, a timidez pode trazer diversos aspectos positivos. Pessoas tímidas tendem a ser mais introspectivas, sensíveis em relação aos sentimentos e necessidades dos outros, empáticas e humildes. Isto não significa que todos os indivíduos introvertidos reúnam essas qualidades, ou que os extrovertidos não as tenham.
 
Falar de coragem implica obrigatoriamente falar de medo. E quantos medos abrigamos? Há medos dos quais somos plenamente conscientes. Há outros que estão bem guardados no subconsciente, e muitas vezes sem percebermos que eles estão lá, determinando nossos passos.
 
Lemos na edição de abril de 2014 de “O Teosofista”:
 
“Os medos subconscientes têm grande influência sobre o estado de consciência do ser humano; exceto quando são conhecidos, e quando são observados do ponto de vista da vida eterna do eu superior.” [1]
 
O autoconhecimento é fundamental. E é fundamental por quê? Será para crescermos em sabedoria? E o que é crescer em sabedoria?
 
Será mostrar para os outros que sabemos muito sobre muitas coisas?
 
Crescer em sabedoria é elevar a consciência, é purificá-la, é transcender a personalidade, para poder servir a vida e ser útil ao trabalho dos Mestres.
 
Mas transcender a personalidade não implica sufocá-la. Para transcender é preciso compreender, olhar para nós mesmos sem os véus e as camadas que fomos colocando como forma de nos protegermos de nós próprios, dos nossos medos, sonhos, traumas e esperanças.
 
Na reunião dos coordenadores da LIT, Carlos citou as obras de Lise Bourbeau e falou das feridas emocionais que geralmente surgem na infância devido à ignorância dos adultos. Muitos carregam a vida toda feridas invisíveis, mas dolorosas. A maioria opta, ainda que de forma subconsciente, por tapar essas feridas, ocultando-as. Mas nem por isso elas deixam de doer e de interferir no dia-a-dia.
 
A Teosofia é a Medicina da Alma, como diz o título de um texto disponível nos websites associados. [2] Nele Carlos escreve:
 
“Ao invés de apenas memorizar um ensinamento, os teosofistas devem curar a si próprios da doença da ignorância e ajudar outros a fazer o mesmo.”
 
A Teosofia tem-me ajudado a enxergar as minhas feridas com mais clareza.
 
O estudo, a contemplação, o trabalho teosófico, auxiliam-me na compreensão da dor e no processo de cura.
 
A Arte de Vencer o Medo
 
Escrever sobre o que sinto e penso sempre foi uma forma de tratar as minhas feridas. Tiro por isso a camada protetora de um ferimento e compartilho com vocês a experiência. Trata-se de um exemplo de fatos que podem acontecer na infância de todo ser humano. Meus pais têm limitações, mas as infâncias deles tampouco foram fáceis. Adoro-os a ambos. A dor passa de geração em geração, segundo Carlos destacou na conversa sobre coragem.
 
****
 
Certo dia, quando tinha cerca de 4 anos de idade, meu pai passeava comigo junto da Ria (baía) Formosa, no Algarve. Ele encontrou uns amigos e começou a conversar. Eu afastei-me, comecei a caminhar e perdi-me dele. A experiência dói até hoje.
 
Existem dias em que o passado está mais presente do que o agora. Cenas surgem dos recantos mais escuros da memória com seus aromas, cores e vozes. Como fica pequeninho o meu coração nesses momentos… é o coração passa de uva: seco, isolado, enrugado, encolhido, envergonhado, pesado e dolorido. Como se alguém o estivesse a apertar com uma mão forte, a esmagá-lo por entre os dedos: mas a mão é a dor das recordações, das mágoas, das humilhações, das esperanças perdidas e do sentimento de culpa.
 
Quem olha para o coração passa de uva pode pensar que já não guarda vida, mas, no seu interior, ele esconde sementes de esperança. Sementes que, quando humedecidas pela água da compreensão e temperadas pelo sal das lágrimas do perdão, começam a germinar. O milagre acontece, e o que parecia morto revela nova vida. Mas não é fácil perdoar. Perdoar não está em dizer que se desculpa. Perdoar não passa por esquecer o que nos magoou. Perdoar está em se libertar da humilhação, da dor, e de toda angústia. É partir as correntes que nos prendem à dor, é derrubar paredes e tetos que nos isolam da luz que brilha lá fora, uma luz que parece existir em todos os lugares, exceto na cave dos meus sentimentos.
 
Dizem que perdoar passa por aprender. E às vezes não consigo fazer nenhuma dessas coisas. Dizem também que é quando se perdoa que se pode começar a viver.
 
Ainda não aprendi que deixei de ser a criança perdida na multidão, desesperada por estar sozinha sem a presença dos meus pais. A criança que chora ao sentir que foi abandonada. A criança que caminha sem norte em busca do que lhe é familiar, de um porto seguro, de um abraço e até mesmo de uma palmada. Não curei a criança que desistiu de vaguear pelas ruas da esperança e se sentou no muro do desespero enquanto era afogada pelas ondas do seu choro.
 
É certo que surgiu um desconhecido – talvez um anjo da guarda vestido de ser humano – que percebeu a minha solidão e o meu desespero, que me consolou por segundos, por mim transformados em pequenas eternidades. Conversou comigo com delicadeza, deu-me a mão e transmitiu-me confiança caminhando na rua movimentada em busca dos meus. Recordo-me que era mulher, de pequena estatura, cabelo curto com caracóis, usava óculos. Lembro-me do sorriso e de como foi tranquilizador esse sorriso. No entanto, não me recordo do reencontro com meus pais. Perdi-os para sempre quando me vi sem eles?
 
O que ocorre na mente de uma criança perdida só ela o sabe naqueles momentos de angústia.  E ela própria deixará de o saber em breve. Como escape, como norma de segurança do seu frágil mundo emocional, cedo ela encaixota o que sentiu e pensou e esconde a caixa de tais recordações no canto mais longínquo e de difícil acesso do seu ser.
 
A ignorância leva os adultos a cometer grandes injustiças contra as crianças. E a agressão não se limita a situações físicas. Há um tipo de injustiça invisível capaz de danos tão ou mais graves do que uma grande surra. Minha mãe seguramente sofreu muito em sua infância. E da sua parte, quando eu era criança, ela me dizia:
 
“A tua irmã quando nasceu era tão linda, tão linda. Branquinha, comprida, parecia a branca de neve. Tu? Tu quando nasceste eras feia, tão feia. Ahahahah. Pequenita, vermelha, gorda.”
 
Só eu sei como a minha mãe parecia alegrar-se ao dizê-lo. Ainda hoje ouço as fortes gargalhadas e vejo aquela faísca agressiva no olhar e as linhas dos lábios traçadas com riscos de ironia. Talvez também ela tenha as suas caixas guardadas algures no labirinto do seu ser e seja ainda uma criança que não se encontrou.
 
“És filha dos ciganos. Passaram por aqui e deixaram-te à porta.” “Parece que caíste do berço quando eras bebê”.
 
Com frases destas, ela tentava educar-me. Queria derrubar a minha rebeldia. Fazia questão de marcar com tais declarações que parecia impossível eu ter sido gerada em seu ventre.
 
Talvez isso explique o fato de em criança eu ter um amor tão grande pelos animais abandonados. Sempre que via um a deambular junto ao portão, alimentava-o, dava muito carinho e tentava levá-lo para dentro de casa. Os cães perdidos eram o meu espelho. Conversava longamente com eles e tentava subconscientemente mostrar aos adultos de que forma deviam tratar o animal ferido, rejeitado e perdido, que havia em mim.
 
Já muitos anos se passaram. Parece que parte do meu ser – uma gigantesca parte – ainda está sentada naquele muro, cansada de procurar por quem ela julga que não a quer encontrar. E os anos têm desfilado assim. Passeiam à minha frente, enquanto eu permaneço sentada no muro junto à Ria (baía) Formosa. 
 
Não foi por acaso que durante largos anos voltava uma e outra vez a vasculhar gavetas em busca de fotografias que provassem que a minha mãe tinha estado grávida de mim.
 
Uma só fotografia foi encontrada e nada provou. Fotografias comigo em bebê havia algumas. “Mas os ciganos podiam perfeitamente ter-me deixado à porta ainda recém-nascida”, pensava eu. “Foi isso, ou então fui dada para adoção por uma família que não tinha meios para me criar.” Foram numerosos os cenários e as hipóteses que criei com a minha dor. Era impossível pertencer àquela tribo.
 
“Pareces a tua mãe quando era nova”; “Tens traços da tia Adriana” – ouvi os mais velhos dizerem por diversas vezes. No entanto, não reconhecia qualquer semelhança física.
 
Não, eu não podia ser dali. Não… meus pais, meus verdadeiros pais e irmã, teriam de estar em qualquer outra parte do planeta. Meu coração segredava que pais verdadeiros nos aceitam como somos e não nos apertam para rebentar como fazem os adolescentes vaidosos quando veem aparecer uma espinha nos seus rostos. Eu estava sobrando ali: deslocada, desorientada, perdida.
 
Meu mundo era diferente do mundo em que a maior parte da minha família vivia.
 
Nossos costumes, linguagem, sonhos, medos, esperanças, avançavam em direções opostas. Jamais desconfiaram que eu lia o mundo deles e falava para eles através do silêncio. Diziam-me mais através dos seus atos do que pelas palavras. E era doloroso ouvir tudo aquilo que era dito pelos olhares, pelos gestos e suas escolhas.
 
Percebi que as suas frases raramente expressavam o que de fato diziam no espaço do silêncio. E vi que as palavras eram para eles como casacos e vestidos usados para evitar a vergonha da nudez.
 
Sempre fui amada e protegida pelo meu pai, embora ele não ousasse fazê-lo abertamente. Mas ele venceu. Hoje tenho orgulho de trabalhar com ele profissionalmente. Ele foi e será sempre um herói para mim.
 
****
 
A narração acima procura ser um testemunho objetivo de um aspecto da minha caminhada na busca da sabedoria. A realidade é complexa, e ela muda e se transforma à medida que muda o nosso ponto de vista. Falo aqui da minha realidade interior. A vida sempre nos mostra novos ângulos da realidade.
 
Perdoar é Resgatar a Paz
 
Perdoar é necessário. Perdoar a mim mesma por me afastar de meu pai no dia em que me perdi na rua, perdoar o meu pai por me perder, perdoar a minha mãe por não me querer e não me desejar, perdoar minha irmã pela recusa de me aceitar, ou pelo que percebo como esta recusa. Perdoar a todos por me rejeitarem como quem rejeita um sapato que faz calo no pé. Só pelo perdão consigo ser senhora dos meus passos e caminhar com liberdade e independência.
 
Insistir em criar uma realidade paralela, ilusória, cujo destino é sempre o ponto de partida – o muro da Ria (baía) Formosa – seria deixar a minha criança interior ao abandono. Já aceitar a realidade tal como ela é, sem mágoa, é pegar a criança e conduzi-la pela mão até o mundo dos adultos. É preciso coragem para enxergar as feridas. E uma dose maior de coragem, para cuidar delas.
 
O relato da minha experiência é uma fotografia, uma ilustração. O teosofista deve estudar a relação viva entre coragem, medo e ânimo de vencer, em sua caminhada como buscador da verdade.
 
Blavatsky escreveu:
 
“É necessária mais coragem para olhar o mundo de frente e sem distorções, do que para entrar num local retirado em que vivem bestas selvagens.” [3]
 
A Coragem de Ser Sincero
 
O mundo que precisamos enxergar está tanto dentro de nós quanto ao nosso redor. A meta é observar sem distorções. Em questões de alma, o principal terapeuta, capaz de nos curar, é o nosso Eu Superior.
 
A Teosofia é para todos, mas aqueles que colocam o coração e a alma no que fazem, no que pensam, no que sentem, são mais beneficiados pelos seus ensinamentos.
 
O mundo precisa de gente que procura aumentar a sua própria coragem, de gente capaz de olhar para si mesma e para o mundo com um olhar direto, de indivíduos com coragem suficiente para ser sinceros, com coragem para sarar feridas, arrancar ervas daninhas e para semear as sementes dos frutos que alimentarão o novo mundo e o ser humano do futuro.
 
A LIT trabalha para curar o sofrimento do passado, e para libertar o hoje e o amanhã. O desenvolvimento gradual e firme da nossa coragem é uma das metas que melhor definem a LIT. A vitória é certa para todos aqueles que são dedicados e sinceros no cultivo do espírito.
 
NOTAS:
 
[1] Do texto “Quando a Coragem Produz a Vitória”, pp. 1-2, de “O Teosofista”, abril 2014.
 
[2]Teosofia, a Medicina da Alma”, texto de Carlos.
 
[3] Preceitos e Axiomas do Oriente – 02”, de Helena P. Blavatsky.
 
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O artigo “O Medo, a Coragem e a Vitória” está disponível nos websites da Loja Independente de Teosofistas desde 03 de junho de 2026. Ele também faz parte da edição de novembro de 2024 de “O Teosofista”, páginas 8 a 14. Uma versão inicial do texto foi material de estudo para associados da LIT em novembro de 2024.  
 
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Helena Blavatsky (foto) escreveu estas palavras: “Antes de desejar, faça por merecer”. 
 
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